quarta-feira, 7 de maio de 2008

CPI dos Cartões Corporativos na TV Senado




Os brasileiros que possuem antena UHF e conseguem sintonizar na TV Senado podem acompanhar diariamente o show de líderes partidários, eleitos legalmente com grande margem de voto. Atualmente, o assunto é a CPI dos cartões corporativos. É um tal de dossiê, que uns dizem que foi criado para prejudicar o governo de Fernando Henrique. Outros políticos afirmam que pretendem investigar se o documento vazou ou não.

Ao assistir a TV Senado, não faltam trocas de acusações, xingamentos e ameaças. É comum ver um dos líderes da oposição, como Arthur Virgílio, ameaçar a base aliada do PT de trancar a pauta, impedindo a votação. Semana passada foi a vez da senadora Ideli Salvatti protagonizar um bate-boca intenso com o senador Álvaro Dias. O assunto: um suposto dossiê contra o governo FHC.

Ambos discutiram se os papéis entraram no senado "voando"! Enquanto os políticos passam horas duelando sobre assuntos que pouco dizem respeito à vida da população brasileira, projetos importantes deixam de ser discutidos, votados e aprovados. Não há derrotado e nem vitoriosos nesse jogo. Talvez o único nocauteado seja o povo brasileiro, que a cada ano que passa, desacredita mais nos políticos que elegeu.


* Por Antônio Almeida

Violência alta, solução baixa


Os altos índices de assassinatos em Salvador marcam a vida dos baianos. Nos finais de semana a média é de 28 mortos, a maioria vitimas de arma de fogo e envolvidas com o tráfico de drogas. No passado diziam que tudo era resolvido com uma boa conversa, atualmente a frase é: “vou cortar no aço”, o que significa matar com tiro ou vários tiros e a promessa é cumprida.

Algumas medidas com a finalidade de conter a violência vêm sendo adotadas pelo Governo do Estado, que recentemente substituiu o secretário de Segurança Pública da Capital, na esperança de conter a brutalidade urbana, mas o resultado ainda não foi alcançado. Enquanto isso, a população indefesa aguarda desesperada sem saber quantos ainda morrerão para que a situação seja controlada.

No último final de semana foram 30 mortos e com um agravante: a polícia civil estava em greve e a militar ameaçando parar as atividades. E mais uma vez os soteropolitanos pagaram o preço. Os boatos de arrastões em diferentes pontos da cidade, assaltos a ônibus iam tomando conta da cidade e o pânico ia se alastrando como uma “peste”. Ninguém sabia o certo o que estava acontecendo.

Por volta das 22 horas, no dia 31 de março, no percurso entre Pituba e Ondina nenhuma viatura da Polícia Militar foi vista, e no sentido inverso também, o que foi causando mais insegurança nas pessoas, que fechavam os vidros dos carros, andavam em alta velocidade, rezando para chegar logo em casa e em paz. A cidade começou a ficar deserta, o comércio fechando as portas, alunos abandonando as salas de aula na tentativa de chegar em casa com segurança. As informações eram desencontradas, a cada momento surgia um fato novo, e diante de tanta violência em Salvador as pessoas não duvidavam que tudo aquilo fosse realmente verdade.

Nesse momento o direito garantido pela Constituição Federal, de ir e vir foi arrancado da população de forma agressiva e dolorosa, a lei maior não foi respeitada. E após o drama vivido, não houve nenhuma explicação por parte das autoridades. Enquanto isso a sociedade permanece entregue à marginalidade que invade as casas, domina os bairros, deixando marcas de sangue por onde passa, causando muito desespero e dor. Ficam algumas perguntas aos detentores do poder: Até quando vamos conviver com essa insegurança, impunidade, falta de respeito às leis e omissão das autoridades? É preciso ter pressa, enquanto ainda há tempo para mudar o rumo da sociedade baiana, caso contrário Salvador será mais uma capital assustada e subordinada ao tráfico de drogas.

* Por Márcia Barreto

A FORÇA DA TV


A televisão vem sendo objeto de pesquisa de vários estudiosos. Inúmeras questões já foram abordadas, mas não se tem conclusão nenhuma acerca do que é esse aparelhinho aparentemente inofensivo capaz de fazer maravilhas e barbárie. Essa coisa chamada TV chegou no Brasil na década de 50, sem nenhuma cerimônia, foi fincando raízes, entrando sem pedir licença nos lares e conseguindo transformar as pessoas e toda a sociedade. O poder é tão grande que induz o país de norte a sul.


Tem uma produção eclética. Qualquer um consegue identificar-se com os programas de auditório, novelas, esportes, notícias, enfim, o cardápio é variado. Basta colocar o dedo no controle e está ali o desejado, é a gosto do cliente. Com características próprias, a TV possui grande poder junto à sociedade. Tudo que é mostrado provoca discussões, debates, indignação e revolta na população. Por isso é preciso cautela na hora de noticiar um fato.

Nas últimas semanas a televisão tem dado espaço diário a um crime que aconteceu em São Paulo, onde a vítima foi uma garota de cinco anos morta misteriosamente. As autoridades não conseguiram ainda saber quem são os verdadeiros culpados. Mas, noticiaram a prisão de dois suspeitos, deixando a entender nos comentários que os acusados são os verdadeiros assassinos, antes mesmo de sair o resultado do inquérito policial. A notícia da morte da criança causou indignação entre os brasileiros, mas isso não dá o direito à TV de colocar a opinião pública contra os dois principais suspeitos. Já que a lei é clara: todos são inocentes aos olhos da lei até que se prove o contrário.

A relação entre televisão e sociedade é complexa e se faz necessária muita precaução na hora de usar a autoridade desse pequeno aparelho que tem o poder, para não prejudicar pessoas inocentes como já foi feito no passado. O caso da Escola Base é um deles e tornou-se um assunto muito discutido pelos estudantes de comunicação, que aprendem desde o início que uma informação dada como verdade, sem que tenha ocorrido o esclarecimento dos fatos, pode comprometer eternamente a vida de pessoas inocentes.

Mas, esquecimento ou não, muitos ex-alunos estão atuando no mercado de trabalho e parecem esquecer tudo o que viram na academia. As imposições dos proprietários dos grandes veículos, que é a audiência a qualquer custo, são absorvidas abruptamente, e chega a ser louvável a tamanha dedicação desses profissionais, pena que por motivos obscuros. A fama e o dinheiro são grandes vilões dessa história de sofrimento e dores incuráveis de pessoas inocentes. A forma de fazer telejornalismo deve ser reavaliada, antes que seja tarde demais. Devemos todos nos preocupar, e muito, com isso. Hoje são eles, amanhã poderá ser você.


* Por Márcia Barreto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Os mortos vivos

Pedro Levindo

Há alguns anos não passa mês sem que se encontre, em algum veículo de comunicação americano, um artigo ou matéria que, entre outras coisas, decreta a morte dos jornais impressos. Jornalistas, especialistas (em quê, mesmo?), analistas e investidores resolveram voltar suas baterias com força total contra diários e agora também contra as revistas semanais. E tome-lhe bombardeio. Ninguém estipulou uma data exata ainda, mas há quem diga que de 2050 não passa. Passa. Assim como em 2050 não viveremos em estruturas de vidro e metal que ficam acima das nuvens, nem andaremos em carros voadores, nem usaremos ridículas roupas prateadas, os jornais e revistas ainda existirão.

É óbvio que a situação dos meios de comunicação impressos, como jornais e revistas, não é das mais confortáveis. Ambos estão perdendo receita publicitária para a Internet, e os jornais têm perdido leitores, em alguns casos, num ritmo acelerado. Como toda teoria, novo formato e novidade, os números e previsões catastróficas vêm dos Estados Unidos. Alguns dados para o leitor se assustar: desde 1990, 25% das vagas na imprensa americana foram extintas; nos últimos três anos as redes de jornais americanas com ações na bolsa perderam 42% de seu valor de mercado; apenas 20% dos jovens americanos (18-34 anos) lêem jornal, entre outras considerações. Isso se alia aos fatos de que os jovens têm preferido buscar na Internet suas fontes de informação, o leitor médio de jornal (que tem 55 anos) está envelhecendo e lendo cada vez menos (30 minutos por dia) e o público confia cada vez menos na imprensa (cerca de 20%). O cenário ruim acaba de piorar.

Alguns desses dados estão presentes em artigo do repórter Eric Alterman, da prestigiada revista americana The New Yorker. Outros são de conhecimento público. O que importa realmente, no entanto, é que o fim não está próximo para os jornais, até porque não haverá fim. As razões para isso são inúmeras. Algumas delas foram expostas pelo próprio Alterman em seu artigo (ele não fez qualquer previsão ali).

Aos que acham que a Internet é grande produtora de conteúdo informativo, é bom que pensem de novo. As maiorias dos blogs, considerados revolucionários por muitos, simplesmente ecoam o que a chamada grande imprensa diz. Como muitos editores e jornalistas apontam, garimpar informações e redigi-las de modo adequado, ouvindo diferentes fontes, é caro. Juntar um monte de conteúdo que alguns veículos já produziram e jogar tudo isso na Internet, opinando em cima, é bem barato. Ou seja, fica difícil imaginar um mundo com blogs quando o maior facilitador de sua existência, os jornais impressos, não existem mais.

Alguns jornais investem pesadamente na Internet. O projeto considerado mais avançado, por enquanto, é o do New York Times. Prestigiado diário americano, o jornal nova-iorquino é considerado pro muitos o melhor do planeta. Ainda vende bastante e tem atraído leitores para seu site. Nada disso, contudo, impediu que perdesse metade de seu valor de bolsa no ano passado. Se o New York Times está desse jeito, calcule o resto.

Mas o NYT não vai sumir. Apesar de alguns erros recentes, ainda é um grande jornal. E todos os países precisam de jornais, principalmente grandes jornais. Por menos que as pessoas se informem, ao menos uma parcela delas precisa se informar. E são os jornais os responsáveis por levar, diariamente, as notícias mais importantes ao público. São eles também, ainda, os veículos a agendar a pauta de outros meios. E, principalmente, são eles que trazem a maior quantidade de informação ao leitor. É claro que você acha arquivos enormes e quantidades também gigantescas de informação na Internet. Acha, em geral, nos sites dos jornais impressos.

Além da quantidade de informações, há ainda a qualidade dos textos. Quem lê algo na Internet não lê, passa o olho. Poucos têm paciência para ficar horas à frente de um computador lendo o que quer que seja. E quem é um pouco mais exigente tem menos paciência ainda para ler textos telegráficos e pouco contextualizados.

Há, contudo, a questão da rapidez. O jornal realmente é mais lento. Leva 24 horas para se atualizar ou corrigir erros. Os sites levam segundos. Entretanto, é fato que a probabilidade de se cometer erros quando se faz algo com pressa também é maior.

Quanto ao público, ele de fato está mudando. Muitos não se interessam mais por notícias. Muitos, inclusive jornalistas, não têm a menor idéia do que se passa a seu redor. Neste caso, quem está perdido não são os jornais. É o público. Para alento da indústria de jornais e revistas, no entanto, quem lê em geral é fiel. E caso receba informação, análise, opinião, e vá lá, entretenimento de qualidade, o leitor se mantém fiel.

Outro ponto para os jornais é que quem gosta de ler gosta mesmo é de papel. O leitor pode ir aonde bem entender com seu jornal, revista ou livro. A maneira menos incômoda de ler num computador é no notebook. No entanto, apesar de pesarem cada vez menos, pesam bem mais que papel. Além do mais, custam muito mais caro. O notebook também não lhe dá o prazer de virar a página, voltar à página anterior, sentir o papel, leva-lo a inúmeros lugares, marcar o lugar onde parou a leitura, etc. Esse prazer só o papel, no jornal, na revista e no livro, proporciona.

Além do mais, quem estiver interessado em algo específico muitas vezes tem de buscar o que quer na Internet. No jornal o assunto se apresenta a você, de forma fácil, acessível e palatável. Você não que ir à cozinha de um restaurante para ver o que vai comer, você pede o cardápio, certo?

Por essas e outras o jornal e a revista - nem eles nem seu formato de papel – vão morrer. Apesar do que dizem alguns “analistas”, “especialistas”, investidores e, claro, jornalistas. Estes devem ir bem antes do centenário jornal.

Os mortos vivos

Pedro Levindo

Há alguns anos não passa mês sem que se encontre, em algum veículo de comunicação americano, um artigo ou matéria que, entre outras coisas, decreta a morte dos jornais impressos. Jornalistas, especialistas (em quê, mesmo?), analistas e investidores resolveram voltar suas baterias com força total contra diários e agora também contra as revistas semanais. E tome-lhe bombardeio. Ninguém estipulou uma data exata ainda, mas há quem diga que de 2050 não passa. Passa. Assim como em 2050 não viveremos em estruturas de vidro e metal que ficam acima das nuvens, nem andaremos em carros voadores, nem usaremos ridículas roupas prateadas, os jornais e revistas ainda existirão.

É óbvio que a situação dos meios de comunicação impressos, como jornais e revistas, não é das mais confortáveis. Ambos estão perdendo receita publicitária para a Internet, e os jornais têm perdido leitores, em alguns casos, num ritmo acelerado. Como toda teoria, novo formato e novidade, os números e previsões catastróficas vêm dos Estados Unidos. Alguns dados para o leitor se assustar: desde 1990, 25% das vagas na imprensa americana foram extintas; nos últimos três anos as redes de jornais americanas com ações na bolsa perderam 42% de seu valor de mercado; apenas 20% dos jovens americanos (18-34 anos) lêem jornal, entre outras considerações. Isso se alia aos fatos de que os jovens têm preferido buscar na Internet suas fontes de informação, o leitor médio de jornal (que tem 55 anos) está envelhecendo e lendo cada vez menos (30 minutos por dia) e o público confia cada vez menos na imprensa (cerca de 20%). O cenário ruim acaba de piorar.

Alguns desses dados estão presentes em artigo do repórter Eric Alterman, da prestigiada revista americana The New Yorker. Outros são de conhecimento público. O que importa realmente, no entanto, é que o fim não está próximo para os jornais, até porque não haverá fim. As razões para isso são inúmeras. Algumas delas foram expostas pelo próprio Alterman em seu artigo (ele não fez qualquer previsão ali).

Aos que acham que a Internet é grande produtora de conteúdo informativo, é bom que pensem de novo. As maiorias dos blogs, considerados revolucionários por muitos, simplesmente ecoam o que a chamada grande imprensa diz. Como muitos editores e jornalistas apontam, garimpar informações e redigi-las de modo adequado, ouvindo diferentes fontes, é caro. Juntar um monte de conteúdo que alguns veículos já produziram e jogar tudo isso na Internet, opinando em cima, é bem barato. Ou seja, fica difícil imaginar um mundo com blogs quando o maior facilitador de sua existência, os jornais impressos, não existem mais.

Alguns jornais investem pesadamente na Internet. O projeto considerado mais avançado, por enquanto, é o do New York Times. Prestigiado diário americano, o jornal nova-iorquino é considerado pro muitos o melhor do planeta. Ainda vende bastante e tem atraído leitores para seu site. Nada disso, contudo, impediu que perdesse metade de seu valor de bolsa no ano passado. Se o New York Times está desse jeito, calcule o resto.

Mas o NYT não vai sumir. Apesar de alguns erros recentes, ainda é um grande jornal. E todos os países precisam de jornais, principalmente grandes jornais. Por menos que as pessoas se informem, ao menos uma parcela delas precisa se informar. E são os jornais os responsáveis por levar, diariamente, as notícias mais importantes ao público. São eles também, ainda, os veículos a agendar a pauta de outros meios. E, principalmente, são eles que trazem a maior quantidade de informação ao leitor. É claro que você acha arquivos enormes e quantidades também gigantescas de informação na Internet. Acha, em geral, nos sites dos jornais impressos.

Além da quantidade de informações, há ainda a qualidade dos textos. Quem lê algo na Internet não lê, passa o olho. Poucos têm paciência para ficar horas à frente de um computador lendo o que quer que seja. E quem é um pouco mais exigente tem menos paciência ainda para ler textos telegráficos e pouco contextualizados.

Há, contudo, a questão da rapidez. O jornal realmente é mais lento. Leva 24 horas para se atualizar ou corrigir erros. Os sites levam segundos. Entretanto, é fato que a probabilidade de se cometer erros quando se faz algo com pressa também é maior.

Quanto ao público, ele de fato está mudando. Muitos não se interessam mais por notícias. Muitos, inclusive jornalistas, não têm a menor idéia do que se passa a seu redor. Neste caso, quem está perdido não são os jornais. É o público. Para alento da indústria de jornais e revistas, no entanto, quem lê em geral é fiel. E caso receba informação, análise, opinião, e vá lá, entretenimento de qualidade, o leitor se mantém fiel.

Outro ponto para os jornais é que quem gosta de ler gosta mesmo é de papel. O leitor pode ir aonde bem entender com seu jornal, revista ou livro. A maneira menos incômoda de ler num computador é no notebook. No entanto, apesar de pesarem cada vez menos, pesam bem mais que papel. Além do mais, custam muito mais caro. O notebook também não lhe dá o prazer de virar a página, voltar à página anterior, sentir o papel, leva-lo a inúmeros lugares, marcar o lugar onde parou a leitura, etc. Esse prazer só o papel, no jornal, na revista e no livro, proporciona.

Além do mais, quem estiver interessado em algo específico muitas vezes tem de buscar o que quer na Internet. No jornal o assunto se apresenta a você, de forma fácil, acessível e palatável. Você não que ir à cozinha de um restaurante para ver o que vai comer, você pede o cardápio, certo?

Por essas e outras o jornal e a revista - nem eles nem seu formato de papel – vão morrer. Apesar do que dizem alguns “analistas”, “especialistas”, investidores e, claro, jornalistas. Estes devem ir bem antes do centenário jornal.

Céu e inferno num pedaço de plástico

Pedro Levindo

Quem tem cartão de crédito conhece o céu e o inferno. O céu, em geral é quando se ganha ou se adquire o cartão. Sair e fazer a primeira compra é uma delícia. Você vai feliz, à procura de qualquer coisa que possa comprar com seu novo brinquedinho. Compra algo. Depois compra outra coisa. É tão fácil! Olha, gosta, pega, leva ao vendedor, e sem nem precisar de dinheiro, entrega o cartão, assina, e vai embora, feliz, feliz. Depois da primeira compra seguem outras. Uma maravilha. Agora tem crédito, tem status, tem um pedaço de plástico com seu nome que faz coisas que você nunca sonhou. Você está nas nuvens. Ocorre que, ao final de um mês, a nuvem se dissipa e você cai. É hora de pagar a conta. Muitos, sem perceber que ao final da farra sempre chega a fatura com o total a pagar, não tem condições de arcar com os gastos. Daí vem os juros, as dívidas, os sacrifícios, etc. Este é o inferno.

O que ocorre, então, quando você não tem de pagar a conta? Paraíso o tempo todo! Quando alguém paga a conta por você, você não se preocupa com o quê e com quanto vai gastar. Você simplesmente gasta. Se o cartão foi dado por mamão e papai, de vez em quando o caldo entorna. Aí eles tiram o cartão por um tempo, você entra na linha, eles devolvem. E volta tudo ao normal.

Quando o cartão é dado pelo povo brasileiro, isso não acontece. Ninguém pede sua prestação de contas. Seus 180 milhões de papais e mamães tem coisas mais urgentes com que se preocupar, como botar comida na mesa, pagar o colégio dos filhos, arcar com a carga tributária, tentar não contrair dengue ou qualquer outra doença de país subdesenvolvido, enfim, sobreviver.

O recente escândalo dos gastos dos cartões de crédito corporativo da presidência e seu sigilo vem, mais uma vez, nos mostrar que há uma classe de privilegiados no país que está acima do bem e do mal. Enquanto o resto trabalha, esses poucos privilegiados, que ganham bem, e às suas custas, saem por aí fazendo compras pessoais com o seu dinheiro.

Você lembra quanto pagou de imposto de renda na última declaração (isso para quem tem renda, coisa rara no país, e para quem declara, mais raro ainda)? Pois bem, pegue esse dinheiro, some com os impostos que incidem sobre os produtos e serviços que você compra e utiliza, bem como outros tributos, como IPVA, IPTU, etc., e chegue a um número. Agora imagine alguma autoridade entrando num badalado restaurante do circuito Brasília - São Paulo – Rio de Janeiro, pedindo um prato elaborado e um bom vinho. Mas espere aí? O que eu tenho a ver com o jantar da autoridade? Tudo, pois quem pagou a conta ao final foi você!

O pior disso tudo não são as somas envolvidos nos gastos feitos com os já famosos cartões corporativos do governo. Pouco importa se foram 10, 20, 50 ou até 100 milhões de reais. Num orçamento de bilhões e bilhões, isso é uma gota, um nada. O que importa é que estão gastando o seu, o meu, o nosso dinheiro em coisas fúteis, em gastos pessoais. O mais impressionante ainda é que, ao contrário do filho do pai rico que ganhou cartão de crédito, a presidência da república não presta contas do que gasta. E é você que paga a fatura.

Dizem que é questão de segurança nacional, como se estivesse no interesse nacional proteger a informação de quanto algum parente do presidente gastou numa padaria chique ou coisa que o valha. No interesse nacional está ver a educação funcionando, o povo saindo da miséria, a saúde melhorando, todos vivendo em segurança. E, claro, por questão de decência, ética, moral e por que não dizer, bons costumes, saber como o governo está gastando o seu dinheiro.

Os dois candidatos


As eleições municipais de 2008 se aproximam. Na capital baiana, o campo político, que já estava embaralhado desde o início, torna-se cada vez mais complexo. Aproveitando a fragilidade da atual administração do prefeito João Henrique Carneiro (PMDB-BA), aparentemente todos com alguma chance de chegar ao palácio Tomé de Souza querem tomar o lugar dele. Desde o início fala-se nos nomes de Raimundo Varela (PRB/ Rede Record), ACM Neto (DEM) e do ex-prefeito Antônio Imbassahy (PSDB). Do lado da esquerda, já deixou a barca furada do prefeito a deputada Lídice da Mata (PSB), dentre outros (o PDT, antigo partido do prefeito e que andou flertando com Imbassahy, foi obrigado a voltar pelo diretório nacional). Para completar o quadro, Nelson Pellegrino (PT), que como um bom brasileiro, não desiste nunca, também quer concorrer. Diante de tal confusão, sobressaem dois nomes que trazem algum alento: os antigos aliados Imbassahy e ACM Neto.

João Henrique não tem feito um bom trabalho. Por isso mesmo atinge apenas 16% das intenções de voto, segundo a última pesquisa séria, publicada pelo Datafolha em dezembro de 2007. É o segundo lugar, atrás apenas de Varela (19%). Para quem tenta se reeleger, ele deveria estar à frente, e bem à frente. O apresentador Varela, com seu populismo primário, seria uma reedição de Fernando José. A gestão de Lídice (9%) todos já conhecem. Pellegrino, com tantos possíveis aliados concorrendo, chega apenas a 3% das intenções, e não tem a menor chance.

O que nos deixa com os dois melhores candidatos, Imbassahy (12% nas pesquisas) e ACM Neto (15%). Os dois são muito bem preparados. ACM Neto, deputado federal baiano mais votado nas últimas eleições, vem de uma conhecida dinastia política. É considerado inteligente e arrogante. Seu trunfo é ter sido preparado pela família (e por si próprio) para chegar aonde o avô e o tio chegaram, e, quem sabe, além. Já Imbassahy foi prefeito durante oito anos. Conhece a cidade, e, apesar de algumas críticas aqui e ali, sua administração era eficiente. Bem avaliado pela população até o final do segundo mandato, foi eleito seguidas vezes melhor prefeito do país.

O que mais impulsiona os dois candidatos, porém, é a vontade. Para ambos é extremamente importante levar a prefeitura. ACM Neto, herdeiro de um grupo político em frangalhos, precisa fazer um bom trabalho à frente da prefeitura para reconstruir suas bases de poder. Só assim estaria mais qualificado para alçar vôos mais altos. Já para Imbassahy a prefeitura é uma questão de vida ou morte. Se ele se lançar candidato e perder, serão quatro anos sem mandato, sem uma base forte que o apoie. Além de serem duas eleições perdidas, sendo que numa delas ele se considerava o franco favorito. Se perder a prefeitura, sua carreira política pode estar seriamente ameaçada.


O melhor dos mundos seria uma chapa com os dois antigos aliados, provavelmente com ACM Neto encabeçando-a, tendo o ex-prefeito como vice. Não dividiram os votos, como tem feito, e naturalmente se beneficiariam da divisão de seus oponentes históricos. Após algum tempo, o deputado democrata estaria liberado para tentar cargo mais elevado na hierarquia política, e a cidade seria então administrada por Imbassahy. É uma hipótese improvável. Todavia, dado o fato de que estamos falando de política, tudo é possível.


*Pedro Levindo