Pedro Levindo
Há alguns anos não passa mês sem que se encontre, em algum veículo de comunicação americano, um artigo ou matéria que, entre outras coisas, decreta a morte dos jornais impressos. Jornalistas, especialistas (em quê, mesmo?), analistas e investidores resolveram voltar suas baterias com força total contra diários e agora também contra as revistas semanais. E tome-lhe bombardeio. Ninguém estipulou uma data exata ainda, mas há quem diga que de 2050 não passa. Passa. Assim como em 2050 não viveremos em estruturas de vidro e metal que ficam acima das nuvens, nem andaremos em carros voadores, nem usaremos ridículas roupas prateadas, os jornais e revistas ainda existirão.
É óbvio que a situação dos meios de comunicação impressos, como jornais e revistas, não é das mais confortáveis. Ambos estão perdendo receita publicitária para a Internet, e os jornais têm perdido leitores, em alguns casos, num ritmo acelerado. Como toda teoria, novo formato e novidade, os números e previsões catastróficas vêm dos Estados Unidos. Alguns dados para o leitor se assustar: desde 1990, 25% das vagas na imprensa americana foram extintas; nos últimos três anos as redes de jornais americanas com ações na bolsa perderam 42% de seu valor de mercado; apenas 20% dos jovens americanos (18-34 anos) lêem jornal, entre outras considerações. Isso se alia aos fatos de que os jovens têm preferido buscar na Internet suas fontes de informação, o leitor médio de jornal (que tem 55 anos) está envelhecendo e lendo cada vez menos (30 minutos por dia) e o público confia cada vez menos na imprensa (cerca de 20%). O cenário ruim acaba de piorar.
Alguns desses dados estão presentes em artigo do repórter Eric Alterman, da prestigiada revista americana The New Yorker. Outros são de conhecimento público. O que importa realmente, no entanto, é que o fim não está próximo para os jornais, até porque não haverá fim. As razões para isso são inúmeras. Algumas delas foram expostas pelo próprio Alterman em seu artigo (ele não fez qualquer previsão ali).
Aos que acham que a Internet é grande produtora de conteúdo informativo, é bom que pensem de novo. As maiorias dos blogs, considerados revolucionários por muitos, simplesmente ecoam o que a chamada grande imprensa diz. Como muitos editores e jornalistas apontam, garimpar informações e redigi-las de modo adequado, ouvindo diferentes fontes, é caro. Juntar um monte de conteúdo que alguns veículos já produziram e jogar tudo isso na Internet, opinando em cima, é bem barato. Ou seja, fica difícil imaginar um mundo com blogs quando o maior facilitador de sua existência, os jornais impressos, não existem mais.
Alguns jornais investem pesadamente na Internet. O projeto considerado mais avançado, por enquanto, é o do New York Times. Prestigiado diário americano, o jornal nova-iorquino é considerado pro muitos o melhor do planeta. Ainda vende bastante e tem atraído leitores para seu site. Nada disso, contudo, impediu que perdesse metade de seu valor de bolsa no ano passado. Se o New York Times está desse jeito, calcule o resto.
Mas o NYT não vai sumir. Apesar de alguns erros recentes, ainda é um grande jornal. E todos os países precisam de jornais, principalmente grandes jornais. Por menos que as pessoas se informem, ao menos uma parcela delas precisa se informar. E são os jornais os responsáveis por levar, diariamente, as notícias mais importantes ao público. São eles também, ainda, os veículos a agendar a pauta de outros meios. E, principalmente, são eles que trazem a maior quantidade de informação ao leitor. É claro que você acha arquivos enormes e quantidades também gigantescas de informação na Internet. Acha, em geral, nos sites dos jornais impressos.
Além da quantidade de informações, há ainda a qualidade dos textos. Quem lê algo na Internet não lê, passa o olho. Poucos têm paciência para ficar horas à frente de um computador lendo o que quer que seja. E quem é um pouco mais exigente tem menos paciência ainda para ler textos telegráficos e pouco contextualizados.
Há, contudo, a questão da rapidez. O jornal realmente é mais lento. Leva 24 horas para se atualizar ou corrigir erros. Os sites levam segundos. Entretanto, é fato que a probabilidade de se cometer erros quando se faz algo com pressa também é maior.
Quanto ao público, ele de fato está mudando. Muitos não se interessam mais por notícias. Muitos, inclusive jornalistas, não têm a menor idéia do que se passa a seu redor. Neste caso, quem está perdido não são os jornais. É o público. Para alento da indústria de jornais e revistas, no entanto, quem lê em geral é fiel. E caso receba informação, análise, opinião, e vá lá, entretenimento de qualidade, o leitor se mantém fiel.
Outro ponto para os jornais é que quem gosta de ler gosta mesmo é de papel. O leitor pode ir aonde bem entender com seu jornal, revista ou livro. A maneira menos incômoda de ler num computador é no notebook. No entanto, apesar de pesarem cada vez menos, pesam bem mais que papel. Além do mais, custam muito mais caro. O notebook também não lhe dá o prazer de virar a página, voltar à página anterior, sentir o papel, leva-lo a inúmeros lugares, marcar o lugar onde parou a leitura, etc. Esse prazer só o papel, no jornal, na revista e no livro, proporciona.
Além do mais, quem estiver interessado em algo específico muitas vezes tem de buscar o que quer na Internet. No jornal o assunto se apresenta a você, de forma fácil, acessível e palatável. Você não que ir à cozinha de um restaurante para ver o que vai comer, você pede o cardápio, certo?
Por essas e outras o jornal e a revista - nem eles nem seu formato de papel – vão morrer. Apesar do que dizem alguns “analistas”, “especialistas”, investidores e, claro, jornalistas. Estes devem ir bem antes do centenário jornal.