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quarta-feira, 21 de maio de 2008

POSSO FALAR?

Personalidade não é mais a opinião formada em relação a alguma coisa, e sim, o que se deve pensar a respeito dela.

Helane Carine Aragão

Preto, não! Afro-descendente. Há quem diga que ser chamado de preto é pejorativo, e quem chama está sendo politicamente incorreto. Ou seria deselegante? Afinal, o que é ser politicamente correto? Pergunta-se a QUATRO indivíduos, da mesma classe social, grau de instrução e negros. Ou pretos? De qualquer forma pergunta-se: Como você gosta de ser chamado? Preto, negro ou afro-descendente? Dois logo respondem: Sou preto! Um diz que não gosta de ser chamado de preto e sim, afro. Preto para ele é pejorativo. O quarto diz que tanto faz.

Essa história de afro-descendente nasceu nos Estados Unidos e como tudo que acontece por lá, foi precariamente copiado aqui. A intenção era diminuir a adversidade e diferença racial entre a população. Ao contrário do que acontece lá, o que deveria ser politicamente correto, ou seja, acabar com as diferenças e preconceitos de cor, aqui, tornou-se algo gritante aos olhos e aos ouvidos. Ser chamados de preto é racismo, quando na verdade, o racismo e o preconceito são mais latentes no próprio negro, ou preto, ou afro-descendente. O mesmo vale para o cego - Ops! - deficiente visual. Xingamento pejorativo entra na lista. Homossexual! Homossexual! Viado, não pode. Bichinha afetada, cruzes, é preconceito.

Agora, antes de dizer o que pensa, é preciso pensar mais de uma vez no que vai falar. Qualquer deslize ou descuido pode tornar o cidadão no ser mais bugre da humanidade - ou seria da nossa sociedade? Não há uma regra sobre o que é politicamente correto ou incorreto, se é moral ou amoral, ético ou antiético. Regras de etiqueta - Urgente! - para não ser deselegante. De repente, ter personalidade e falar o que pensa, não é mais ter convicções e opiniões formadas sobre algo, alguma coisa ou alguém. Principalmente se o assunto for tabu ou um conceito preestabelecido e enraizado e4m relação à de quem pensou, ou falou. Ser contra as cotas é imoral. Nem pensar, quanto mais, falar.

Talvez estejamos entrando numa era onde o pensamento deverá ser condicionado em relação ao que a maioria acha, ou pensa, ou acha que pensa que tem a razão absoluta. A cartilha de termos criada por desocupados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos – Opa! Classificá-los assim é politicamente incorreto – já foi divulgada. Mas torná-la usual vai de encontro às crenças e tradições de um povo secular. Por enquanto a população vai podando certos vícios de linguagem.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ser ou não ser, politicamente correto?

O sistema de cotas para negros nas Universidades é politicamente correto? Ao invés da questão racial, não se estaria deixando de abordar questões mais relevantes, como a social e o sucateamento do ensino público?

Atualmente, as cotas nas universidades públicas estão distribuídas em 20% das vagas para alunos da rede pública, 20% para negros e 5% para portadores de deficiência ou integrantes de minorias étnicas. Na Universidade de Brasília (UNB), 20% das vagas são reservadas para afros brasileiros e 15% para índios e na Universidade do Estado da Bahia, que oferece 40% de suas vagas para os afros brasileiros.

Mas será que a exclusão do negro se resume a uma questão somente racial? O negro figura como maioria nas estatísticas da linha da pobreza e abaixo dela, e quem é pobre no Brasil tem acesso apenas ao ensino público, portanto estão menos preparados para concorrer a uma vaga nas universidades estaduais e federais. Isso se deve ao baixo nível do ensino médio gratuito, que há muito vem sendo sucateado; faltam livros, professores, merenda, atividades culturais, entre outras coisas. Não há como competir em pé de igualdade com o ensino particular, onde a realidade é bem diferente. Portanto, a questão é social. Nem todo negro é pobre, tampouco todo pobre é negro. Estudando em colégio particular, o negro é tão capaz de ingressar na Universidade quanto os brancos e orientais.

Politicamente correto, seria adotar o sistema de cotas para pobres, dentro desta faixa os negros estariam contemplados por serem maioria. Ninguém deixa de chegar a Universidade pela cor da pele e sim pela falta de capacitação no ensino médio. É fundamental que se invista no ensino público e em cursos que coloquem pessoas das classes menos favorecidas em igualdade com o resto da sociedade.

Dessa forma, havendo um combate efetivo a desigualdade social, aliado a recuperação do ensino público, os negros poderão ter sua inclusão garantida na universidade, sem lançar mão de privilégios legais, afirmando sua capacidade.

* Lívia Melo