sexta-feira, 2 de maio de 2008

O céu é(ra) o limite

Paloma Batista

Preso a mil balões de festa, o padre Adelir de Carli, 41, partiu de Paranaguá (PR), na tarde de domingo dia 20 de abril, rumo a um recorde: permanecer por mais de 20 horas no ar. Menos de 10 horas após a decolagem, ele sumiu no litoral norte catarinense.

Nas reportagens sobre o tema, amigos do padre afirmaram que ele era um homem ligado a esportes radicais, praticava pára-quedismo, voava de parapente e também mergulhava. No entanto, especialistas afirmam que pode ter faltado planejamento – e até conhecimento – quando ele resolveu unir a paixão pelo esporte às causas sociais.

Conhecimento certamente faltou. É inadmissível que alguém louco por esportes radicais se lance numa aventura de tal envergadura como a que o padre se propôs, com um aparelho de GPS em mão, mas sem saber usa-lo. É também, para dizer o mínimo, curioso que uma pessoa que pretendia passar 20hs no ar levasse um celular via satélite cuja bateria tem duração máxima de 3h. Só sendo muito maluco ou realmente acreditando na benção divina.

Acima de tudo, o religioso contrariou os meteorologistas e ignorou os conselhos das beatas e dos amigos, resolvendo voar mesmo com chuva. As buscas pela Marinha, Aeronáutica, PM e Corpo de Bombeiros já se encerraram. A maior parte das pessoas acha que, apesar da vaidade, o padre já está ao lado de Deus. A família, no entanto, ainda paga um avião bimotor para patrulhar a área em busca do padre, com vida. Seguindo a tradição católica, eles parecem acreditar em milagres.



quinta-feira, 1 de maio de 2008

Guerra Santa

Na semana passada, a novela Duas Caras da Rede Globo, de Aguinaldo Silva, exibiu cenas em que uma evangélica fanática chamada Edvânia (interpretada pela atriz Susana Ribeiro), reuniu um grupo de fiéis da religião para espancarem um homossexual, uma ex-prostituta grávida, e o companheiro deles, que é garçom.

A forma como a novela usou o “modelo religioso”, não agradou nem um pouco aos seus representantes. Na emissora Record, conhecida por ter cunho evangélico, exibiu no programa Domingo Espetacular uma matéria abordando a forma como a Emissora Globo havia se referido de forma “preconceituosa”.

Obviamente a novela trata-se de ficção, porém a forma como foi abordada afetou de fato a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), que se sentiram afrontados pela dramaturgia global.

De fato, a encenação feriu os valores religiosos de alguns, porém para a Globo, o que se passou na novela foi apenas ficção, e se a IURD se sentiu ofendida, foi graças a se reconhecerem como “fanáticos”.

Porém, religião se discute? Não querendo cair no tom acusador, mas a própria Record já utilizou opiniões agressivas sobre outras religiões, principalmente o candomblé e o espiritismo. O próprio bispo Edir Macedo, dono da Rede Record, já cometeu intolerância religiosa ao escrever o livro "Orixás, Caboclos e Guias - Deuses ou Demônios?". Publicação extremamente preconceituosa, que chegou a ser retirada de circulação.

A Globo, exagerou na dramaturgia e na satisfação da evangélica fanática, pois não foi colocada apenas como uma fanática, de forma individual, e sim como um grupo de ideólogos insanos, “influenciando” a percepção do espectador sobre a religião.

Já a Record, esqueceu do passado, não distante em 2005, quando eles foram intolerantes. Após tantas discussões e propostas de pautas relacionadas ao assunto, fica nítido o despreparo televisivo, para a abordagem do tema religião.

*Midiã Santana

Salvador beira o caos no trânsito

Quando se trata das questões urbanísticas de Salvador, os problemas podem ser resumidos em uma palavra: acessibilidade. A cidade sofre hoje as conseqüências de uma falta de planejamento de crescimento. No último ‘dilúvio’ que aconteceu no dia 27 de fevereiro, foi um sinal de que salvador precisa pensar em seu desenvolvimento. A chuva que atingiu níveis pluviométricos de 130.8 milímetros em 24 horas, o que equivale a chuva de um mês inteiro de fevereiro, sendo o maior índice de todo o país, provocou mais de 5 horas de congestionamento em toda a cidade.

A situação se explica pelo aumento do número de carros em circulação na cidade nos últimos anos. Em média, a frota soteropolitana cresce 6% ao ano e chegou, em dezembro de 2006, a 550 mil veículos em circulação, segundo dados do Detran. Hoje, a frota cresceu cerca de 9%, chegando a 594 mil veículos, segundo dados do departamento de estatística da Superintendência de Engenharia de Tráfego (SET).

E esse número só tende a crescer. Uma semana após o incidente que a imprensa chamou de ‘dilúvio”, a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), divulgou em uma emissora de rádio local que as vendas de veículos novos no varejo cresceu 33,7% só no mês de fevereiro. Segundo a entidade, os resultados acumulados do ano são os melhores da série histórica do setor.

A Bahia chega a vender hoje, cerca de 5 mil carros ao mês e a tendência , segundo Luís Pimenta, presidente da Fenabrave, é só aumentar e a conseqüência disso serão problemas no tráfego baiano. Mas para o chefe de Departamento do Setor de Estatística da SET, Ivo Almeida , o caso de Salvador não é igual a São Paulo. Segundo ele o órgão não tem como mensurar o tamanho dos congestionamentos na cidade, porque não existem equipamentos. Não há se quer um departamento que estude o assunto. Quem percebe mesmo o caos que o trânsito de Salvador está se tornando são os motoristas. Antes, os engarrafamentos restritos aos horários de rush, principalmente nas regiões do Iguatemi e Avenida Paralela, hoje podem ser vistos em qualquer lugar , a qualquer hora do dia. Muitos podem achar que a solução para este problema é a abertura de novas avenidas e vias de acesso, mas já está comprovado que isso não adianta. Os veículos rapidamente vão ocupar essas novas vias.

A solução pode estar na valorização do transporte público e a utilização de veículos alternativos, como as bicicletas, em lugar dos veículos particulares. O problema são as limitações do transporte urbano, que não oferece o conforto e a conveniência suficientes para convencer as pessoas a abrirem mão do veículo próprio para utilizar o coletivo. Associado a isso está a cultura de valorização do automóvel e as dificuldades de deslocamento a pé pela cidade. Outra grande e boa alternativa seria se o metrô de uma vez por todas saísse do papel e das varias promessas de inauguração.

*Camila França

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Horror Show


Um tiro no pulmão dos brasileiros. Primeiro, a crônica de horrores da empresária goiana Sílvia Calabresi Lima, que torturava e mutilava cotidianamente, em sua área de serviço, uma menina de doze anos adotada ilegalmente. Agora, a morte de Isabella Nardoni, aparentemente arremessada, aos cinco anos de idade, por um buraco na tela de proteção instalada numa janela do apartamento do pai. Ambos, crimes brutais, casos chocantes envolvendo crianças. Perdemos o fôlego.
A curiosidade sobre a resolução dos casos, principalmente do último, ainda sem solução, é natural. Mas a pergunta imediata que me faço é: até onde pode ir uma especulação? E isto se refere, principalmente, ao trabalho da imprensa e das mídias televisiva e online, que aderiram a uma maratona insana para ver quem ocupa mais tempo da programação, ou vai mais longe, sugerindo desfechos possíveis para o episódio.
Quem assistiu a edição de sábado do Aqui Agora (só a volta desse programa já valeria o comentário) viu uma entrevista deprimente com uma psicanalista, a quem o repórter insistia em perguntar sobre o que levaria o pai a assassinar Isabella. Posta na parede, a entrevistada tentava medir as palavras, mas não deixou de afirmar que Alexandre Nardoni tem o biótipo de pessoas que são acometidas de surto psicótico. Um exemplar típico de dupla especulação, tendo em vista que nem mesmo a polícia definiu o assassino e quais as suas razões. As imagens da criança, exaustivamente expostas, são complementadas com tomadas aéreas da rua da mãe Ana Carolina, em plena noite.
Quem pensar que apenas palpiteiros de praxe, conhecidamente sensacionalistas, como Luís Datena, andam abusando da inteligência emocional do espectador, o G1 (site de notícias da Globo.com) prova o contrário. Uma matéria do último domingo traz o seguinte: “Prédio de onde Isabella caiu vira atração”. Este é o título da reportagem feita por Carolina Iskandarian (será que ela e seus editores já ouviram falar sobre direito ao contraditório e ampla defesa?), que chega a citar um “clima de hostilidade” por parte dos moradores do edifício London, de onde Isabella foi atirada. E teria mesmo coisa mais agressiva, invasiva e hostil que o assédio dos curiosos e da imprensa? “Não é justo o que vocês estão fazendo com a gente. Isso aqui não é ponto turístico. As crianças não podem mais descer para brincar. Quando é que vamos ter privacidade?”, respondeu uma moradora do segundo andar.
Outra façanha ocorreu na edição de O Globo, sábado passado. Além de resgatar Xuxa do ostracismo, o impresso cedeu espaço a uma rainha dos baixinhos cheia de razão sobre o caso Isabella. Sim, porque ela já afirma em sua carta aberta que o responsável pela menina jogou-a da janela na tentativa de educá-la. É isso mesmo ou eu entendi errado?
Para além dos veículos de comunicação que vendem capas e competem pelos shares de audiência, a polícia contribui sensivelmente para a crucificação do pai e da madrasta de Isabella e torna cada descoberta, uma cena do espetáculo. Mesmo com o inquérito sobre a morte da menina, correndo em segredo de Justiça, a relação promíscua entre jornalistas e policiais reproduzem atitudes intempestivas - como a de uma delegada que, no dia seguinte à tragédia, aos brados, anunciava quem era o assassino – ou, no mínimo, espalhafatosas. Vide o promotor de Justiça Francisco Cembranelli, perito em “exclusivas” e coletivas recheadas de comentários que insinuam suspeição do casal.
Este purgatório midiático produziu uma sensação de constante ansiedade no âmbito doméstico. O assunto virou tema de rodas de amigos e, em alguns casos, antes mesmo de qualquer outro assunto, comenta-se sobre a culpa da morte da pequena Nardoni, o conhecimento de provas e avanços da perícia técnica, a reação da mãe e dos avós paternos, o que ocorreu antes do crime; verdadeira corrente especulativa extra-mídia, que retroalimenta os noticiários.
Alguns homens de imprensa voltaram a 1994. O primeiro deles, o veterano Alexandre Garcia pedia cautela no Jornal da Manhã, três dias após o crime, ao lembrar o caso da Escola Base, quando duas mães de alunos denunciaram à polícia que seus filhos haviam sido molestados sexualmente pelos donos da escola – eles eram inocentes, mas foram publicamente linchados. Outros suscitaram a acusação de assassinato, sem provas, dos pais da inglesinha Madeleine McCann, desaparecida em Portugal e cujo corpo jamais foi encontrado.
Quem matou? A pergunta comum aos capítulos finais das telenovelas da Rede Globo talvez não deixe tão cedo o olhar da audiência. De fato, o acompanhamento da opinião pública perante questões judiciais é fundamental para exigir uma investigação isenta e eficiente. É bom lembrar, apenas, que a garotinha de cinco anos não é mais uma personagem de Gilberto Braga, assassinada ao final da trama: mais respeito a Isabella Nardoni e à teia de bestialidade que originou o seu trágico falecimento.


*Maria Isis

O poder e a cor comandam até nesses casos

A mídia brasileira está acostumada a se valer de casos atípicos para construir seus discursos e assim lutar na guerra por pontos de audiência. A nova coqueluche é o caso de Isabella Nardoni, a garotinha de cinco anos, assassinada de forma cruel, supostamente pelo pai e pela madrasta (Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá).
A qualquer hora que se liga a TV você se depara com a imprensa explorando esse caso. As capas de revistas e jornais também pararam no tempo. Não se fala de outra coisa. Mas será que se aquela garota fosse pobre e negra, a população brasileira teria acesso ao ocorrido naquele dia? Com certeza ela faria parte apenas de mais um caso nas estatísticas.
De acordo com pesquisa desenvolvida pela Folha de São Paulo, há dois anos, 70% dos casos de assassinatos a crianças e adolescentes no Brasil foram contra negros. Mas o que se viu, até hoje, na telas e nas capas dos impressos passou longe dessa estatística. Os casos trazidos à tona remetem sempre a crianças e adolescentes de classe média-alta e de cor branca, a exemplo de Isabella (29/03/08) e João Hélio (07/02/07) - garoto arrastado quilômetros do lado de fora de um carro, no Rio de Janeiro.
A morte do negro é comum na nossa sociedade. O que está sendo tratado aqui não é o teor de importância do assassinato a uma criança de cinco anos e sim o porquê da mídia brasileira ser tão sensacionalista. Será que é porque a população já está acostumada à visão de que o preto e pobre não tem direitos? Que só o rico merece ter seus problemas esclarecidos? É o que fica subentendido. Já se passou um mês desde o ocorrido e até hoje o que se vê são inúmeros exageros da mídia brasileira envolvendo o caso Nardoni. O último foi sobre a reconstituição do crime realizada no domingo (27/04/08). A TV Record não sabia mais qual ângulo mostrar da sacada do prédio, já estava tudo tão “batido” e mesmo assim levaram mais de duas horas fazendo uma cobertura sustentada pelo nada. As chamadas eram sempre as mesmas “Voltamos agora, ao vivo, da frente do prédio dos Nardoni, onde foi feita, hoje, a reconstituição do crime”. Tanto exagero (horas transmitindo as mesmas imagens, os mesmos depoimentos) até que surja um novo caso digno de atenção, de acordo com os pré-requisitos (interesses mercadológicos) desta imprensa vigente.

*Fernanda Borges

Um programa de auditório chamado “Jornalismo”

Algumas vezes me questiono sobre a profissão que escolhi. Não é uma dúvida de vestibulando às vésperas de fazer um processo seletivo para ingressar na faculdade, é uma dúvida que me ocorreu depois de ver o famoso caso Isabella. Desde o primeiro semestre aprendi que devo buscar a imparcialidade, ouvir os dois lados e colocá-los na notícia sem “puxar a sardinha” para nenhum dos dois. Aprendi que não se deve fazer sensacionalismo de um fato, e muito menos dos problemas alheios. Somos formadores de opinião, exercemos uma influência natural sobre aqueles que nos assistem e nos lêem. Quem nunca ouviu alguém usar como argumento “Eu vi no jornal!” e derrubar todos os outros?

Agora, quem somos nós? Quem são essas pessoas que estudam, passam quatro anos se preparando, pegam o diploma e ferem o Código de Ética do Jornalista Brasileiro? O artigo 6º afirma que é um dever do jornalista “respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”. Qual foi o respeito dado à imagem do pai de Isabella, Alexandre Nardoni, antes mesmo da polícia decretar a prisão preventiva?A imprensa o acusou desde o princípio sem que a polícia assim o fizesse. O artigo 9º lembra que “a presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística”, ou seja, todos são inocentes até que se prove o contrário.

Não quero de maneira nenhuma defender o pai de Isabella, até porque sou estudante de jornalismo e não fui contratada como advogada de defesa, o que acho é que não estamos na posição de juízes de ninguém. Nossa função é a de informar e não induzir.

Como li em um artigo do Observatório da Imprensa, “se o pai for de fato culpado, será punido ao fim da investigação. Se for inocente, já está punido”. Daqui a pouco iremos nos formar para trabalhar no programa do João Kleber com direito a choros ao vivo e testes de fidelidade.

*Driely Lago

O verdadeiro rei


Na Itália, o fanatismo pelo futebol pode ser igualável ao nosso, pentacampeão e considerado por muitos, o melhor de todos. Lá, a adoração pelos jogadores canarinhos é enorme. Estes, presentes em todas as ligas, desde os clubes mais populares até os de menor expressão, são considerados ídolos e peças-chave para as esquadras.

Tamanha adoração atravessa os anos e nos remete a jogadores como Mazzola, que se naturalizou italiano, tornando-se um dos maiores ídolos do Milan, Careca e Ronaldo, só para citar alguns. Mas não pode deixar de se falar no mais lembrado da cidade eterna, o “Rei de Roma”, Falcão.
Jogador de muita classe, que costumeiramente marcava gols, que ajudavam o seu clube, mesmo sendo um volante de posição original, Falcão se destacou logo no início da sua carreira, no Internacional de Porto Alegre, e logo se transferiu para a Roma, clube de muita expressão na Itália, mas que não conquistava um título há 40 anos.

A fila que o clube se encontrava, logo foi extinta com o reforço de Falcão, e o clube, conquistou diversos títulos se consagrando entre os maiores da Europa. Jogadores como
Agostino Di Bartolomei e Bruno Conti, entraram para a história do clube e são lembrados até hoje pelos torcedores. Mas, por unanimidade, Falcão por tudo que fez se tornou a grande referência da longa história de grandes jogadores do passado da Roma.

Contudo, os anos se passaram, e um jovem jogador, vindo das divisões de base do clube se destacou e se tornou peça fundamental, tornando-se titular e também o líder e símbolo do time. Em um elenco que possuía jogadores mais velhos e de maior experiência, Totti logo se tornou capitão e referência para os torcedores fanáticos do clube.

Assim como Falcão, Francesco Totti comandou seu time para conquista de vários títulos no início dos anos 2000. Eleito várias vezes o melhor jogador do país, Totti obteve sua glória máxima com a conquista da Copa do Mundo de 2006, contribuindo com lindos passes e gols, mesmo sem estar na sua melhor forma física, pois voltava de uma grave contusão no tornozelo esquerdo.

Depois da Copa, e com a velha forma adquirida, Totti vem se exibindo numa forma extraordinária, marcando gols e trazendo a esperança para os torcedores da Roma de mais títulos nesta temporada, considerado, até agora, um dos melhores jogadores do campeonato. Com mais de 200 gols marcados em toda sua carreira, jogando unicamente no seu clube de coração, Francesco Totti é o maior artilheiro da esquadra romanista.

Falcão, com toda habilidade e importância no passado da Roma é merecedor de um lugar especial nas galerias e na vida deste grande clube. Mas, sem dúvida Totti, por ser um jogador com mais representatividade frente à torcida, de muitos títulos, que mais jogou e marcou pelo clube, ser “prata da casa”, e nascido na cidade eterna, além de ser declaradamente torcedor apaixonado da Roma, torna-se justo coroá-lo como o “rei” de Roma.

*Emerson Cunha

Violência em Pauta

Pedaços de madeira, móveis velhos e cartazes. Essas foram às “armas” utilizadas pelos moradores do bairro de Santa Cruz, para interditarem a Avenida Nova República, que liga o bairro à Pituba, em protesto contra a violência da região. Porém, não são apenas esses moradores que estão reféns do perigo, toda a capital da Bahia passa por um período de sitio.

No ano passado de acordo a Secretaria de Segurança Pública - SSP, o registro de assassinatos em Salvador foi em média de 3,66 por dia, totalizando o número de 1.337 mortes, um aumento considerável em relação a 2006, com 967 registros. Realmente, o número de mortes aumentou, e a cobertura do tema também. O que pode ser conseqüência do estado de “toque de recolher”, que a população esta sujeita. César Nunes, novo Secretário da SSP, - que assumiu o cargo após o pedido de exoneração de Paulo Bezerra, ao Governador Jaques Wagner- disse recentemente no Encontro de Coordenadores Regionais de Polícia Civil, que é necessário unificar as ações da Polícia Civil e Militar, e qualificá-los.

Obviamente não podemos esperar um resultado imediato, e enquanto essa “qualificação” é feita, todos os dias as notícias dos números de mortos, o que se tornou uma constante nos jornais por ser um assunto que repercute, estará exposto na mídia. O que curiosamente não é pautado são os motivos desse grande número de assassinatos em Salvador. Pois, é fato que as mortes sempre existiram, mas por que está tão em evidência no momento? Talvez seja apenas pela estatística, porém é notável que na gestão de Wagner esse número aumentou, o que não quer dizer que seja culpa do novo governo.

Com a derrota de Paulo Souto, membro da hegemonia Carlista desde 1991, intrigantemente as mídias que mostravam Salvador como a Terra da Alegria, passou a cobrir com freqüência os casos de homicídios e crimes. Algo nada estimulante para coligação “Bahia de Todos Nós”.

*Midiã Santana

Casos semelhantes, investigações discrepantes

Por Isis Santana

Os brasileiros acompanham, comovidos, o caso da menina Isabella Nardoni, de apenas cinco anos, que caiu, ou foi jogada, do sexto andar do prédio em que seu pai mora. A notícia é chocante, mas quantas crianças morrem vítimas de crime ou acidente no Brasil? Inúmeras. Porém, nesse caso há um diferencial.

O Instituto Médico Legal (IML), que demora em torno de trinta dias para emitir o laudo, em menos de uma semana divulgou os resultados de exames que comprovam que a menina foi espancada e asfixiada antes de morrer. Os principais suspeitos, o pai e a madrasta da garota, tiveram quebra de sigilo telefônico e a prisão preventiva decretada. Diferentemente de outros casos, que demoram anos para serem concluídos, o caso Isabella parece que terá desfecho bastante rápido.

Um dos processos que se arrasta há anos é o caso de Lucas Terra, que foi queimado vivo em 21 de março de 2001. Somente sete meses depois de iniciadas as investigações foi divulgado o autor do homicídio: o pastor Silvio Galiza. Porém, até hoje o acusado está em liberdade. E somente em 28 de outubro de 2007 os pais foram indenizados. No entanto, nesses casos, o que menos importa é a indenização. O que os pais querem ver é a justiça agindo e prendendo os culpados.

O difícil é entender porque em alguns casos a justiça se mostra ágil e eficaz e noutros lenta e burocrática. Isabella e Lucas tiveram mortes inusitadas. Será que a classe socioeconômica elevada da vítima e a divulgação do fato pela mídia são o combustível que move a justiça?

Não há uma crítica contra a investigação acelerada no caso da menina Isabella Nardoni, Muito pelo contrário. O que se deseja é que esta celeridade seja aplicada à todos os casos como o dela, e não haja mais demora na busca das vítimas por um desfecho justo. Também precisamos entender por que essa demora acontece, para que a justiça reveja seus conceitos e atitudes. E para que o símbolo da mulher de olhos vendados e com a balança realmente represente a objetividade e o equilíbrio em todos os casos.




Violência no trânsito é sinônimo de caos

Isis Santana

“Motoqueiro, caminhão, pedestre, carro importado, carro nacional; mas tem que dirigir direito para não congestionar o local”. Se todos seguissem o conselho da música de Arnaldo Antunes muito provavelmente Salvador não estaria enfrentando o atual caos no trânsito.

Contudo, existe outra justificativa válida, além da falta de educação dos motoristas e pedestres, para o aumento dos engarrafamentos e da violência no trânsito de Salvador: o crescimento do número de automóveis circulando em proporção ao lento desenvolvimento das vias urbanas. Segundo dados do (Departamento Estadual de Trânsito) Detran-Ba, na Bahia há 1,7 milhão de veículos nas ruas, 600 mil deles apenas em Salvador. Dá-se assim uma combinação desastrosa: aumento do número de automóveis, mais desrespeito às leis de trânsito resulta em violência.

Olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, como aprendemos na infância, tornou-se pouco. Agora é preciso, além disso, esperar o carro parar no semáforo e certificar-se de que o motorista está lhe vendo, para apenas depois atravessar. Assim aconselham até as campanhas do Detran.

Os pedestres não estão mais seguros. Literalmente, a violência subiu as calçadas. O vilão dessa história são as motos. Estatísticas mostram que de 2005 até hoje o número de motos em circulação pulou de 36.720 para 55.323, só na capital. E os motoqueiros, na tentativa desenfreada de “furar a fila” e fugir do congestionamento, continuam andando pelos corredores de carros, arriscando-se e subindo as calçadas, dirigindo na mesma velocidade que no asfalto. Dessa forma, assustam os pedestres e causam mais acidentes.

O desrespeito às regras de trânsito por parte dos carros, motos e até dos pedestres é flagrante. Aliado ao número cada vez maior de veículos nas ruas, juntamente com a fiscalização falha, o resultado é a violência e o caos no trânsito. Há no entanto, solução para o problema. Ele somente poderá ser combatido com a (re)educação de quem o provoca: os motoristas e pedestres desatentos.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Código de Hamurabi Baiano


O aumento da repressão não diminui a criminalidade. Pelo contrário, o que ocorre na capital baiana é uma distorção dos papéis: a polícia se tornou uma grande ameaça, baseada no racismo.

Nas últimas décadas, a polícia baiana se tornou conhecida pela forma truculenta de agir. O quadro parece ter piorado com o governo Jaques Wagner, no qual cresceu o número de homicídios e foi mantido o coronel Jorge Santana, que comandava as tropas da Polícia Militar no governo anterior.

Apenas nos primeiros 20 dias de janeiro de 2008, segundo a revista Carta Capital, foram 12 mortos pela PM de Salvador. Quase sempre rapazes negros de periferia e alguns, como os quatro casos relatados pela reportagem, sem antecedentes criminais ou porte de armas. No dia 7 de março, sexta-feira, foram mais dois assassinatos cometidos pela polícia, no Ferry Boat. O motivo alegado foi a suspeita de serem assaltantes de bancos, o que levou os oficiais a atirarem nos homens que compravam os bilhetes antes de lhes abordarem, como relata uma testemunha em matéria de A Tarde.

O comportamento social mostra que o racismo está arraigado na cultura baiana. Há pouco mais de 30 anos a capital se modernizou, no entanto, sua política continuou com características de província coronelista. O preconceito é tão introjetado na sociedade que, por paradoxo, os policiais foram educados a perseguir um perfil semelhante ao seu: negro de origem humilde, a exemplo dos toques de recolher em comunidades periféricas.

Nos protestos à Comissão de Direitos Humanos ou imprensa para reivindicar os crimes cometidos contra um familiar, o delator não tem amparo garantido pelo Estado. A divulgação torna-se vã, pois inúmeros são os casos em que a Secretaria de Segurança Pública diz estar investigando os agentes de segurança envolvidos no crime. Esses, não descobertos pela instituição, saem impunes.

A melhoria nas condições de trabalho não é garantia para uma atuação mais digna da polícia. Essa, por sua vez, poderá valer-se ainda de mais força para mostrar seu desempenho. O histórico problema da arbitrariedade ilegal apenas pode ser resolvido com um novo perfil policial, através de uma educação mais humanística.

Com uma política de extermínio não é preciso mais shows em comemoração ao Dia Internacional dos Direitos Humanos. Num lugar sem prisões e julgamentos, basta valer-se da Lei do Talião (“Olho por olho, dente por dente”), legado baiano baseado no Código de Hamurabi, que justifica qualquer ação da polícia como direito de defesa, e esquecer a palavra Democracia.


* Luciana Zacarias

O céu é(ra) o limite.

Paloma Batista

Preso a mil balões de festa, o padre Adelir de Carli, 41, partiu de Paranaguá (PR), na tarde de domingo dia 20 de abril, rumo a um recorde: permanecer por mais de 20 horas no ar. Menos de 10 horas após a decolagem, ele sumiu no litoral norte catarinense.

Nas reportagens sobre o tema, amigos do padre afirmaram que ele era um homem ligado a esportes radicais, praticava pára-quedismo, voava de parapente e também mergulhava. No entanto, especialistas afirmam que pode ter faltado planejamento – e até conhecimento – quando ele resolveu unir a paixão pelo esporte às causas sociais.

Conhecimento certamente faltou. É inadmissível que alguém louco por esportes radicais se lance numa aventura de tal envergadura como a que o padre se propôs, com um aparelho de GPS em mão, mas sem saber usa-lo. É também, para dizer o mínimo, curioso que uma pessoa que pretendia passar 20hs no ar levasse um celular via satélite cuja bateria tem duração máxima de 3h. Só sendo muito maluco ou realmente acreditando na benção divina.

Acima de tudo, o religioso contrariou os meteorologistas e ignorou os conselhos das beatas e dos amigos, resolvendo voar mesmo com chuva. As buscas pela Marinha, Aeronáutica, PM e Corpo de Bombeiros já se encerraram. A maior parte das pessoas acha que, apesar da vaidade, o padre já está ao lado de Deus. A família, no entanto, ainda paga um avião bimotor para patrulhar a área em busca do padre, com vida. Seguindo a tradição católica, eles parecem acreditar em milagres.