quarta-feira, 30 de abril de 2008

O poder e a cor comandam até nesses casos

A mídia brasileira está acostumada a se valer de casos atípicos para construir seus discursos e assim lutar na guerra por pontos de audiência. A nova coqueluche é o caso de Isabella Nardoni, a garotinha de cinco anos, assassinada de forma cruel, supostamente pelo pai e pela madrasta (Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá).
A qualquer hora que se liga a TV você se depara com a imprensa explorando esse caso. As capas de revistas e jornais também pararam no tempo. Não se fala de outra coisa. Mas será que se aquela garota fosse pobre e negra, a população brasileira teria acesso ao ocorrido naquele dia? Com certeza ela faria parte apenas de mais um caso nas estatísticas.
De acordo com pesquisa desenvolvida pela Folha de São Paulo, há dois anos, 70% dos casos de assassinatos a crianças e adolescentes no Brasil foram contra negros. Mas o que se viu, até hoje, na telas e nas capas dos impressos passou longe dessa estatística. Os casos trazidos à tona remetem sempre a crianças e adolescentes de classe média-alta e de cor branca, a exemplo de Isabella (29/03/08) e João Hélio (07/02/07) - garoto arrastado quilômetros do lado de fora de um carro, no Rio de Janeiro.
A morte do negro é comum na nossa sociedade. O que está sendo tratado aqui não é o teor de importância do assassinato a uma criança de cinco anos e sim o porquê da mídia brasileira ser tão sensacionalista. Será que é porque a população já está acostumada à visão de que o preto e pobre não tem direitos? Que só o rico merece ter seus problemas esclarecidos? É o que fica subentendido. Já se passou um mês desde o ocorrido e até hoje o que se vê são inúmeros exageros da mídia brasileira envolvendo o caso Nardoni. O último foi sobre a reconstituição do crime realizada no domingo (27/04/08). A TV Record não sabia mais qual ângulo mostrar da sacada do prédio, já estava tudo tão “batido” e mesmo assim levaram mais de duas horas fazendo uma cobertura sustentada pelo nada. As chamadas eram sempre as mesmas “Voltamos agora, ao vivo, da frente do prédio dos Nardoni, onde foi feita, hoje, a reconstituição do crime”. Tanto exagero (horas transmitindo as mesmas imagens, os mesmos depoimentos) até que surja um novo caso digno de atenção, de acordo com os pré-requisitos (interesses mercadológicos) desta imprensa vigente.

*Fernanda Borges

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