quarta-feira, 21 de maio de 2008

POSSO FALAR?

Personalidade não é mais a opinião formada em relação a alguma coisa, e sim, o que se deve pensar a respeito dela.

Helane Carine Aragão

Preto, não! Afro-descendente. Há quem diga que ser chamado de preto é pejorativo, e quem chama está sendo politicamente incorreto. Ou seria deselegante? Afinal, o que é ser politicamente correto? Pergunta-se a QUATRO indivíduos, da mesma classe social, grau de instrução e negros. Ou pretos? De qualquer forma pergunta-se: Como você gosta de ser chamado? Preto, negro ou afro-descendente? Dois logo respondem: Sou preto! Um diz que não gosta de ser chamado de preto e sim, afro. Preto para ele é pejorativo. O quarto diz que tanto faz.

Essa história de afro-descendente nasceu nos Estados Unidos e como tudo que acontece por lá, foi precariamente copiado aqui. A intenção era diminuir a adversidade e diferença racial entre a população. Ao contrário do que acontece lá, o que deveria ser politicamente correto, ou seja, acabar com as diferenças e preconceitos de cor, aqui, tornou-se algo gritante aos olhos e aos ouvidos. Ser chamados de preto é racismo, quando na verdade, o racismo e o preconceito são mais latentes no próprio negro, ou preto, ou afro-descendente. O mesmo vale para o cego - Ops! - deficiente visual. Xingamento pejorativo entra na lista. Homossexual! Homossexual! Viado, não pode. Bichinha afetada, cruzes, é preconceito.

Agora, antes de dizer o que pensa, é preciso pensar mais de uma vez no que vai falar. Qualquer deslize ou descuido pode tornar o cidadão no ser mais bugre da humanidade - ou seria da nossa sociedade? Não há uma regra sobre o que é politicamente correto ou incorreto, se é moral ou amoral, ético ou antiético. Regras de etiqueta - Urgente! - para não ser deselegante. De repente, ter personalidade e falar o que pensa, não é mais ter convicções e opiniões formadas sobre algo, alguma coisa ou alguém. Principalmente se o assunto for tabu ou um conceito preestabelecido e enraizado e4m relação à de quem pensou, ou falou. Ser contra as cotas é imoral. Nem pensar, quanto mais, falar.

Talvez estejamos entrando numa era onde o pensamento deverá ser condicionado em relação ao que a maioria acha, ou pensa, ou acha que pensa que tem a razão absoluta. A cartilha de termos criada por desocupados da Secretaria Especial dos Direitos Humanos – Opa! Classificá-los assim é politicamente incorreto – já foi divulgada. Mas torná-la usual vai de encontro às crenças e tradições de um povo secular. Por enquanto a população vai podando certos vícios de linguagem.

“Berimbau sim, berimbau não, berimba, berimba, berimbau...”

Helane Carine Aragão

Acabo de me redescobrir, depois de quase 30 anos vividos, uma parva, uma bronca, uma tapada estúpida redundamente assumida.

Sou fã de esportes. Comecei na natação aos cinco anos. Nadei durante nove. Aos 14, por falta de patrocínio - talvez não fosse tão boa quanto achava que eu era - resolvi largar o esporte. Ser atleta me impedia de participar, dentre outras coisas, das festinhas de 15 anos da turma do colégio ou dos lanches na Mc Donalds aos sábados à tarde no shopping.

Vida de atleta é de fato cheia de privações. Minhas primeiras desilusões amorosas também vieram junto com a natação. Larguei de mão sem pestanejar.

Em meio à prática nas piscinas da capital, e do interior baiano, veio o tênis, esporte no qual eu superava muito pouca gente por competição. Apenas uma. Fiz algumas aulas, mas também larguei. O que eu mais gostava era a roupa alva, branquinha, e a mini-saia.

Ah, qual é? Eu estava na adolescência, puberdade, hormônios frívolos, estas coisas.

Então, nessa época, estudava à tarde e nadava pela manhã, bem cedo. Sete da manhã já estava na água executando braçadas e pernadas. As nove, o treino terminava e eu vestia a minha sainha branca e corria para a quadra com a raquete em mãos. Ao terminar a aula, tomava banho no próprio clube. Às 11h30min eu já estava pronta, pois o transporte que me levava até a escola me buscava primeiro, por eu morar muito longe.

Na volta para casa, eu era sempre a última – aqui cabe um adendo: muito feliz aquele ditado que diz que “os últimos serão os primeiros”, no meu caso, no dia seguinte. Depois do colégio, voltava para a piscina. Que vidinha desgraçada eu levava. Além de controlar a alimentação, estudava e praticava esportes. Ah, e surfava aos domingos pela manhã, antes do treino de natação que acontecia todos os dias da semana. Sim, já fiz de tudo um pouco. E nunca repeti sequer um ano no colégio. Nem nunca fui para a recuperação, até começar a namorar aos 13. Mas nunca perdi um ano, mesmo com as novas atividades coronárias.

E assim fui. Cursei uma faculdade de economia, dei aulas de matemática em uma escola de primeiro grau, estudei inglês, dei aulas particulares da língua, trabalhei em uma seguradora, em uma loja de sapatos, em duas construtoras, em uma empresa de capital misto. Dividi minha vida em três turnos: pela manhã trabalhava em um lugar. Pela tarde em outro e a noite ia à faculdade. Voltei a estudar para fazer outro curso de graduação, até me deparar com as últimas edições do jornal A Tarde.

Primeiro fiquei estupefata com o baixo índice no exame que avalia os cursos superiores no Brasil. A faculdade de Medicina da Bahia está entre as 17 piores. Para completar, um “merdinha” me chama de burra! Como assim?

Então resgato a minha vida de atleta e me lembro que tentei fazer capoeira, quando conheci o boxe e o jiu jitsu, aos 24 anos. Quem diz que o berimbau é um instrumento para pessoas de poucos neurônios, nunca tentou tocá-lo. Muito menos lutar ao som dele. Se bem que, dizem que o swing é aparente na cor da pele, ausente no coordenador do curso que fez declarações infelizes.
Mas onde eu estava? Ah, sim, falando da batida do berimbau e porque não falar do ritmo percussivo do Olodum, Timbalada, Ilê Ayê, Malê de balê ou do afoxé Filhos de Gandhy, que para mim, não tem nada de barulhento!

Aposto que o infeliz não faz “sambinha” em caixa de fósforos. Ou é tão imbecil que, ele próprio não percebeu que, como baiano, se encaixa no próprio julgamento que faz da nossa inteligência. Mas então, estou muito depressiva hoje. Toda a minha capacidade e intelecto foram resumidos ao manejo dos meus músculos motores superiores.

E olhe que ele nem me viu nas aulas de capoeira...

Risoto de canabis, governo "doidão"

Helane Carine Aragão

Ironia do destino? Talvez. Mas muita coincidência a polícia do Rio de Janeiro encontrar nesta tarde de quarta-feira um caminhão com toneladas de maconha camufladas - mas vejam só! – debaixo de montanhas de sacas de arroz.

Ainda na semana passada, os gaúchos se preocupavam com o destino do arroz estocado. Enfim, os defensores do separativismo lucrariam com a colheita do cereal mais consumido pelo objeto da comemoração deste centenário, a imigração japonesa.

O governo então interveio na crise do arroz e resolveu leiloar os estoques para, então, controlar uma súbita elevação inflacionária. Já se sabe que quanto menor a oferta, maior a procura, e maior são os preços, e exorbitantes são os lucros. Jean Baptiste Say, autor da Lei de Say – “para toda oferta existe uma procura” – nem precisaria desenvolver novas teorias para as rotinas e crises econômicas no mercado agropecuário. Muda o produto, mas não muda-se o cenário.

Mas então, a novidade vem a galope, ou em um caminhão. E cobre ervas alucinógenas, no Rio de Janeiro que sofre com a Dengue. Haja informação! O mais curioso, e penso, que o carregamento é apenas para abastecer a festa, então suspensa prioritariamente na Bahia, a famigerada Marcha da Maconha.

Assim como é natural, uma frota de caminhões de cerveja e por que não citar água e refrigerante, chegar às cidades para abastecer os comerciantes às vésperas de um evento pelas ruas, por que não trocar as bebidas, pelo motivo da Marcha?

Pelo menos é assim que os organizadores da festa esperavam que o manifesto fosse aceito: com naturalidade. A desembargadora baiana de nome engraçado – Rosemunda! Que nome desgraçado... – embargou a festa e disse mais: Disse que qualquer manifestante que aparecer às ruas, portanto faixas, cartazes ou qualquer objeto que faça alusão à passeata, estará cometendo crime de desobediência e poderá ser preso. Nada mais junto!

De fato, uma passeata desta natureza incita o uso e a legalização de uma droga ilícita. Assim como o estado baiano, outros estados seguiram a iniciativa da mandante da ordem e suspenderam a marcha. Só fico me perguntando o fim do arroz. Será que risoto de canabis relaxaria a economia e controlaria a inflação?

Vai saber...

Quando faltam as palavras

Helane Carine Aragão

Que Fausto Silva, apresentador da Rede Globo, fala demais, é fato. Chega a ser irritante a maneira com que o senhor dos domingos globais monopoliza o microfone – e o assunto. Contudo, vê-lo em uma saia justa perante seus convidados é deveras gratificante.

O ocorrido aconteceu este domingo, 6 de abril, no quadro Dança dos Famosos. Ao conversar com um dos jurados, Faustão esqueceu o nome de uma delas, Adriane Grott, apresentadora do evento de moda Dream Fashion Tour, que acontece no dia 16 de abril em Salvador.

O mais patético foi o apresentador enrolar cerca de 30 segundos, ao vivo, ao microfone, enquanto procurava o nome da convidada nos papéis que tinha na mão. Os câmeras não contribuíram para amenizar o “mico” e mantiveram o foco no apresentador, intercalando com a imagem de desconcerto da modelo.

Encontrado o nome de Adriane - que mais parece a Jaqueline, participante do Big Brother Brasil 8 - o apresentador passou a palavra para Arnaldo Cesar Coelho, participante do programa esportivo Bem Amigos do apresentador Galvão Bueno, transmitido pela SportTv.

Desta vez foi o ex-arbitro que esqueceu o nome do técnico do grêmio, Celso Roth, que seria entrevistado logo mais a noite. Talvez o esquecimento e a falta de atenção, e cuidado, com os entrevistados possam ser explicados pelo estrelismo. O mais importante é falar o que se pensa - ou o que se acha - que com quem se fala, nem o que este teria a dizer.

Parece sina de apresentador. Muitos comentários a respeito de Jô Soares e a mesma patologia, a do monopólio do microfone e do assunto tratado, já eram discutidos entre quem assistia ao programa. O fenômeno parece ser global, pelo menos na rede Globo – trocadilhos em merecidas proporções. Há quem desligue o áudio da TV quando o jogo é irradiado por Galvão Bueno.

O que se vê é uma inversão de papéis. Os apresentadores, ao que parece, gostariam de ser as únicas atrações e as únicas especiais. O estrelismo talvez suba à cabeça. Talvez o uso de um ponto auditivo ajudasse Faustão, pois alguém sopraria o nome da modelo no ouvido e o salvaria do constrangimento. Talvez, a intenção seja mostrar que sabe-se sobre o assunto que está sendo abordado. Quem sabe até, saber mais que os próprios entrevistados.
Mas que ficou feio a embromação ao vivo, isso ficou! Ah, se ficou...

Deu a louca no Olimpo

Helane Carine Aragão

Os deuses estão zangados com os paulistas. Com os paulistanos adotados também. A constatação ocorreu depois dos tremores sentidos ontem, 22 de abril, nas terras de lá de baixo. Segundo o G1, site de notícias da Rede Globo – alguém sabe por que deixou de ser globo.com e passou a ser G1? – 32 cidades sentiram o tremor. E não se pode atribuir o tremelique ao show particular dos vizinhos do andar de cima.

Talvez algum exu nordestino “baixou” lá por cima, para mostrar que tudo que sobe, desce. Ou cai. Os tremores foram mais sentidos pelos moradores dos andares mais altos. Coincidência ou não, até porque não acredito em coincidências, os abalos aconteceram no dia que se comemora o Descobrimento do Brasil.

Soube da possibilidade de Hades- Deus do mundo subterrâneo – optar por uma festa no núcleo da terra com a presença de trios elétricos baianos para comemorar a data. Talvez, Junior – ex-Sandy e Junior – tenha comparecido à ocasião para dar “uma palhinha” e entre solos de guitarra e bateria tenha convocado os deuses presentes a pular e sair do chão. Talvez.

Outra hipótese é que Nostradamus errou na previsão do fim do mundo. Fico imaginando os azulejos voando nos corredores do Hospital que fica na Zona Leste paulista, como em uma cena tridimensional de um filme de Spielberg. Luciano Huck diria: Loucura, loucura, loucura! Conjecturas a parte, a idéia de um Tsunami já foi descartada e nenhuma ocorrência de danos físicos, graves, foi registrada.

O planeta Terra está na menopausa. Virou uma mulher surtada, completamente descontrolada. Para deixar nordestinos felizes, fora as chuvas, só falta nevar no sertão. O último inverno que passei na Europa foi frustrante. Passei a ser uma exímia telespectadora da previsão do tempo. Cruzava os dedos para ver a neve em Madrid. O governo espanhol por duas vezes – em 90 dias – jogou sal nas ruas esperando os pequenos flocos gelados. Nova frustração. A mãe natureza não realizou o sonho de uma turista baiana. O mais frustrante foi sentir calor em pleno inverno europeu. Completamente frustrante.

Mas já que o mundo anda louco, fico na torcida em relação à neve. Não faço questão dos tremeliques e chacoalhadas como em terras paulistanas. Nem eu, nem a galera que quer o PDDU aprovado e o gabarito da orla de Salvador aumentado. Pelo menos, na ocorrência de um tsunami, economizaríamos nas lavagens que acontecem durante o ano. A cidade levaria um banho de sal grosso, ou fino. Quiçá, diluído...

É tudo culpa da camisinha!

Helane Carine Aragão

“A camisinha estourou”! Não é difícil escutar esta declaração quando o assunto é gravidez inesperada, sobretudo entre as adolescentes. Uma pesquisa publicada pela Associação Nacional Pró-Vida e Pró-família, demonstra que os índices causam distorções quando o assunto é utilização de preservativos.

Segundo a pesquisa, um dos grandes vilões da pratica do sexo desvairado é a propaganda sobre a proteção e uso da camisinha que acaba estimulando a iniciação prematura da atividade sexual. Na pesquisa, 80% dos adolescentes sexualmente ativos afirmam que foram “iniciados” muito cedo, 84% das meninas, até 16 anos para baixo, querem que as escolas lhes ensinem a dizer “não” à relação sexual, sem ferir os sentimentos da outra pessoa”. O fato é que quanto mais adolescentes praticam sexo, maior é quantidade daquelas que correm o risco de engravidar.

Segundo a mesma pesquisa, 83% dos adolescentes tiveram a primeira experiência sexual de maneira inesperada, logo sem uso de preservativo. Outros tantos afirmam que não usaram porque não quiseram. O velho discurso que só engravida quem quer é certo. Falta de informação, instrução e liberdade para se tratar o assunto nunca foram tão permitidas e acessíveis.

Se a publicidade incita a atividade sexual, por outro lado conscientiza a população dos perigos que se corre em não praticar sexo seguro. Ana Carolina Cunha de Oliveira pariu aos 17 anos. Ela é mãe da menina Isabella Nardoni, criança encontrada no jardim do edifício onde, ao que parece, foi arremessada pela janela do apartamento do sexto andar, onde mora o pai, Alexandre Nardoni, caso fortemente discutido nos últimos dias na impressa.

Durante entrevista ao Fantástico, a mãe conta o quão amiga e companheira de uma criança de cinco anos ela era. Na ocasião, como a própria Ana Carolina relata, ao dar a luz já estava solteira. Caso típico de gravidez na adolescência.

Uma mãe solteira aos 17 anos perde fases essenciais no amadurecimento e aprendizado necessários para a formação do estágio adulto. Nestes casos o processo é interrompido para cuidar-se de outra criança. Tudo indica que Ana Carolina é uma pessoa equilibrada, que contou com o apoio da família e talvez a imaturidade a tenha ajudado a superar de maneira tão fria a perda da filha.

Enquanto os holofotes estão virados para o pai Alexandre Nardoni e a esposa Anna Carolina Trota Jatobá, madrasta de Isabella, e mãe de dois filhos com Alexandre, o que não faz pensar e ponderar que a própria mãe da pequena falecida quisesse a própria vida de volta?

Uma gravidez prematura movimenta aspectos físicos e psicológicos que uma menina de 17 anos não tem estrutura psicoemocional de gerir. Casos e mais casos de abandono e maus-tratos são constantemente noticiados. Diante de tantos acontecimentos, quem pode ser responsabilizado por uma camisinha furada?

Baianos, QI e falta de educação

Pedro Levindo

Criou-se uma celeuma enorme em torno de umas poucas frases idiotas, proferidas por um professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Ao invés de se debater o que levou o (agora ex) coordenador de curso a dizer as asneiras que disse, decidiu-se crucificar o pobre coitado. Mais uma vez, nos preocupamos em tapar o sol com a peneira. Discutiu-se muito se é ou não fácil tocar berimbau. Outras questões, contudo, se fazem um pouco mais urgentes. Digo pouco porque, aqui na Bahia, pouca coisa é mais urgente do que ir a festa de axé e pagode, ou falar besteira, ou... enfim, não fazer nada de muito produtivo.

O que poderia ser mais urgente do que cair em cima do professor abobalhado? Falar da raiz do problema, que era, em suma, ao que o próprio se referia. O problema tem um nome que muita gente sabe, mas pouca gente se importa em resolver: educação.

Ocorre que, ao contrário do que todos (inclusive o professor) pensam, o problema não é só da educação formal. Começa muito antes disso. Começa dentro de casa. E no quesito educação, o povo baiano é de admirar. Neste fim de semana estava eu a fazer compras num grande hipermercado da cidade. É uma experiência que não me traz grande prazer, devo ressaltar. Procurando um presente para uma amiga, fui até a seção de utensílios domésticos. Achei o que queria, mas não havia a etiqueta de preço (obrigatório por lei, não custa nada frisar). Fui até o sensor da seção para passar o código de barras e descobrir quanto o item custava. Quando estava prestes a passar o código, um garoto de cerca de seis, sete anos, veio correndo, pulou em minha frente e passou o item dele no sensor antes de mim. Não era apenas um, eram dois itens. Eu gelei, estupefato. Olhei para trás e vi minha noiva, com a mesma cara de surpresa com a falta de educação do menino.

Não sei nem como ainda nos assustamos com atitudes como essas, pois acontecem todo dia, a toda hora. Ma se eu achava que aquela demonstração de bons modos era o pior que poderia acontecer aquele dia, eu estava enganado, muito enganado. O melhor veio a seguir. Fomos, eu e minha noiva, até a fila de pequenas compras, afinal, eram menos de dez itens. Chegando lá, uma senhora resolveu que não precisava mais do carrinho. Tirou suas compras e largou o carrinho onde estava. Este, detalhe bobo, encontrava-se tapando a entrada do corredor que dá acesso à fila. Como a senhora já estava lá dentro, não se importou muito com tal fato e seguiu em frente. Seu marido, um lorde no quesito bons modos, estava já bem mais à frente, com as mão livres. Eram, surpresa!, os pais do garotinho que havia pulado em minha frente.

Às vezes dá vontade de falar, de gritar, de esmurrar uma pessoa que age da forma como o garoto, a mãe e o pais do mesmo agiram. Ou de fazer o mesmo com alguém que te dá um fechada no trânsito, ou que não abre a porta para você passar, ou até que não agradece quando você abre a porta para ele(a) passar. Você no entanto, se controla, pois sua mãe lhe ensinou que gritar e bater nos outros não se faz, é falta de educação.

Coisas pequenas como os exemplos supracitados acontecem todos os dias em nossa cidade. Isso me leva a pensar que baiano pode até ter o QI alto (discutível), mas não tem educação. Nem formal e nem doméstica. E no dia que quiser passar a almejar a algo mais do que dançar pagode ou pular atrás de trio elétrico, vai ter que estudar um pouco mais. Antes disso, porém, terá de aprender boas maneiras, o que vem a se chamar de educação doméstica. Pode parecer pouco, mas não é. Pedir “por favor”, “com licença”, dar passagem, dizer “obrigado” e “por nada” é o mínimo. Como podemos exigir o máximo de quem não tem o mínimo? Não podemos.

Chameis os baianos (embora não pareça, eu sou baiano) de mal-educados. É uma generalização. Podem dizer que toda generalização é burra. Pode até ser. Se for o caso, eu sou burro. Aliás, devo ser burro mesmo, pois não sei nem tocar berimbau. E olhe que só tem uma corda...

Shopping não!

Paloma Batista

Ir ao shopping escolher roupa com minha mãe. Esse não é um dos meus programas prediletos, acredito que deve ser o último na minha lista de preferências mas, dessa vez, não tinha como dizer não. Era 8 de setembro, dia que antecedia o aniversário dela e, como qualquer “jovem” senhora, ela gosta de estar bem arrumada nessa data. Na verdade, não só nessa, em todas. Minha mãe tem 44 anos, na verdade tinha, porque fez 45 no domingo, dia 9. Com seus cabelos sempre pintados (ela pinta o cabelo de 15 em 15 dias para esconder os fios brancos) e escovados, unhas e sobrancelhas sempre bem feitas, Dona Rita, a senhora minha mãe, acordou no dia 8, disposta a me convencer a ir ao shopping com ela. Acho que quando ela fez essa escolha, não se lembrou do desastre que foram as outras vezes.

Com seus 1,70m e seus 78 kg, minha Mamili (é assim que carinhosamente eu a chamo) chama atenção por onde passa. Desde que ela se separou de meu pai, há quase quatro anos, começou a comprar roupa jovem e a se cuidar bastante. Lá no fundo sei que nossas brigas são ciúmes de filha, mas não deixo de ficar chateada quando vejo algum pretendente ligando pra ela.

Voltando à nossa saída, chegamos ao Shopping Barra por volta das 12h e fomos a uma loja de sapatos que fica no térreo. Como em toda loja, logo um vendedor se aproximou:- O que as senhoras desejam?

Sem nem pensar, minha mãe respondeu:

- Estou procurando um sapato na cor café, não quero nada muito comum. De preferência com salto alto.

Olhei pra ela com aquela cara de que já sabia que tão cedo não voltaríamos pra casa. Dona Rita é bastante indecisa, apesar de que na hora me surpreendeu por saber que queria um sapato na cor café, já era uma evolução. O vendedor trouxe uns sete pares. Logo de cara ela dispensou dois, eram brancos e não café como ela havia pedido. Outros dois modelos não lhe agradaram. Lembro-me que um era trançado e o outro tinha um salto bem pequenino. Depois de calçar os restantes, ela decidiu que não levaria nenhum e agradeceu ao vendedor.

Saímos procurando o sapato café e uma roupa legal. Entramos em algumas lojas, mas ela não viu nada que lhe agradasse muito. Resolvemos então esquecer um pouquinho o que íamos comprar e ficamos passeando pelo shopping. Estava vazio, a maioria das pessoas certamente estava viajando. Estava bom pra andar, sem aquela agitação comum desses lugares. Depois resolvemos ir logo ao 3° piso, onde fica uma loja na qual ela está acostumada a comprar roupa. Entramos e começamos a olhar algumas roupas. Resolvi ajudar, pra ver se andava mais rápido, finalmente achei uma que certamente a agradaria e falei:

- Mãe, vem cá! Acho que você vai gostar dessa.

A vendedora olhou para a gente e perguntou à minha mãe:

- Ela é sua filha? Nem parece! Pensei que fossem irmãs.

Minha mãe, sempre gentil, respondeu que eu era sim filha dela. A vendedora ficou olhando com uma cara meio descrente, mas não falou nada, só ficou nos olhando. Eu nem me importo mais, já cansei de escutar esses comentários. Fabiana, a vendedora, resolveu ajudá-la a procurar algumas roupas. Com duas calças, um legging e uma camisa que parecia mais um vestido, minha mãe entrou no provador. Eu sabia que agora começaria tudo de novo.

- Pê (é assim que ela me chama), vem cá, olha se você gostou.

Acredito que ela já sabia qual era a minha resposta, mas, mesmo assim, fez questão que eu fosse olhar. Pela primeira vez, gostei. Ela tinha vestido uma calça jeans clara, que tinha uns detalhes na perna e uma camisa lilás com um decote lindo nas costas. Minha mãe fica bonita com cores fortes.

- Gostei dessa mãe, mas experimenta o restante pra gente ver como fica.

Não era pra eu ter dito isso. Ela resolveu vestir a legging com um vestido por cima, desses que estão na moda. E resolveu me perguntar:

- Filha, ficou legal?

Fiz logo uma expressão que não e a vendedora logo veio atrás pra dizer que havia ficado linda, vendedores sempre fazem isso. A legging era preta e a camisa que parece vestido era branca, com umas listras azuis e um desenho de coração com brilho nas costas. Não combina com minha mãe.

- A senhora está linda com essa roupa.

A vendedora repetia essa frase de dois em dois segundos e pedia pra ela dar uma rodada.
- Não está! Prefiro a outra. Ela ficou parecendo um balão nesse vestido.

Juro que não havia ficado bom. Aquela roupa havia engordado ela. Acho que já por me conhecer e perceber que estava perdendo a paciência com a vendedora, ela resolveu não experimentar o resto das roupas e levar a que eu havia aprovado. No caixa, a Fabiana ainda comentava que ela deveria levar a outra.

- Já que ela gostou dessa e a senhora gostou da outra, leva as duas.

Antes que dona Rita pudesse pensar no que a vendedora havia dito, logo falei:

- Não foi ela que gostou, foi você! Vamos levar só isso mesmo.

Fomos ao caixa, pagamos e saímos em busca de alguma bijuteria que combinasse com a sua roupa e o bendito sapato na cor café. Passamos em frente a uma loja de sapato no 2° piso e logo na vitrine ela avistou o sapato que queria, nem quis calçar, falou com um vendedor e foi ao caixa enquanto ele ia buscar o sapato. Não demoramos nem cinco minutos naquela loja.

Já eram quase 15h e comecei a ficar com fome. No próprio 2° piso encontramos uma loja que vendia bijuterias, com os modelos que ela estava procurando. Resolvi nem opinar, quando estou com fome fico de mal-humor. Fiquei esperando ela escolher. Quando ela decidiu, perguntou a minha opinião, sem nem prestar atenção disse que era lindo. Finalmente tinha acabado aquele martírio. Saímos às 15h30 do shopping e fomos comer.

O ÚLTIMO ATAQUE

Paloma Batista e
Pedro Levindo

Num país como o Brasil, em que quase nada funciona da forma como deveria, por interesses escusos, desinteresse, preguiça ou pura e simplesmente incompetência, não deveria ser surpresa o teor do último ataque que alguns membros do Congresso fizeram às instituições.

O ataque, um devaneio ditatorial, foi capitaneado pelo deputado Devanir Ribeiro (PT-SP). A idéia de Devanir é possibilitar que o presidente concorra ao terceiro mandato. Considerando que o atual ocupante do cargo possui níveis altíssimos de popularidade (não chegam a ser

estratosféricos, pois, na Colômbia, Álvaro Uribe beira os 85% de aprovação popular), que montam a quase 65%, não seria surpresa se conseguisse aprovar tal projeto com relativa facilidade (mesmo se não tivesse maioria no Congresso, os esquemas tipo “mensalão” estão aí pra isso).

O presidente nega que apóie tal idéia. Pode até ser verdade. Mas, segundo fontes ligadas ao presidente Lula, ele não rejeita a idéia de se mudar mais uma vez a Constituição, aumentando o mandato para cinco anos e suprimindo a reeleição. Segundo o deputado Devanir, essa era. Na verdade, sua intenção desde o início (então ta).

A primeira idéia é péssima. Brincar com a democracia é o mínimo que se pode dizer do terceiro mandato. A partir do momento que se sentem fortes, governantes podem achar que têm pleno poder para fazer o que bem entenderem. Lula já acha. Antes dele, Fidel Castro, Pinochet, Hitler e Mussolini, sem falar nos camaradas Stalin e Mao, tiveram a mesmíssima sensação.

O atual vice-presidente, ao defender a idéia, chegou a citar o caso de Franklin D. Roosevelt, presidente americano que foi reeleito duas vezes. Não poderia ter feito uma comparação pior. Primeiramente pelo fato de que os contextos históricos são completamente diferentes. Os Estados Unidos de Roosevelt eram (e são) um país que não muda suas regras conforme a vontade dos governantes. Eram, ainda, um país que saía de um período de forte recessão e, pior, entrava num em guerra. Uma liderança forte era necessária. O segundo ponto é justamente essa liderança. Lula não é Roosevelt. Roosevelt é um dos grandes homens da história mundial, a quem páginas e páginas foram, são e serão dedicadas nos livros de história. Se Lula conseguir citação em algum, será no máximo uma nota de rodapé (e mesmo assim, operários chegando ao poder na história do mundo não são mais grande novidade – vide o caso de Lech Walesa – aliás, alguém lembra dele?). Para completar o quadro, por melhor presidente que Roosevelt tenha sido, os Estados Unidos mudaram sua lei, proibindo o terceiro mandato, logo depois dele.

A reeleição não é uma idéia ruim. Quatro anos realmente parecem pouco para um governante mostrar a que veio. Se for bem, fica mais quatro (oito é suficiente, nem muito nem pouco). Se não for, em menos tempo terá ido embora. Ademais, a reeleição ainda não foi suficientemente testada para se chegar à conclusão se é boa ou ruim.

A outra idéia, a do mandato menor e extinção da reeleição, também não é grande coisa. Cinco anos não são assim tão diferentes de quatro. Os benefícios de um governo mais longo não seriam tão óbvios. Os malefícios, contudo, podem demorar mais de passar. Uma vantagem, contudo, pode existir: o mandato único ao menos traria o alento de não deixar a máquina na mão de uma pessoa que deseja continuar com ela. É claro que se pode usar sempre a máquina para fazer o sucessor, mas já é provado que nem os mais populares governantes fazem o sucessor ao seu bel prazer.

A Lula interessa essa última mudança. Ele poderia ficar mais um ano no poder, o que daria mais chances de fazer seu sucessor. Melhor ainda, em cinco anos ele não teria de concorrer com um presidente que estará tentando a reeleição, como ele bem sabe, de uma posição de força. Entretanto, ficar mais um ano é antiético. É assim pois muda-se as regras no meio do jogo. Pior, muda-se para benefício próprio. Contudo, dadas todas as demonstrações do governo Lula no campo da ética nos últimos anos, esse parece ser o menor de seus problemas. O problema é unicamente do país.