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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Guerra pela audiência: TVs transformam programas populares em populistas

Já se vão 30 anos desde que o telespectador brasileiro viu nascer os primeiros programas populares com rótulo de jornalísticos. O noticiário Aqui e Agora, exibido diariamente pelo Sistema Brasileiro de Televisão SBT, foi pioneiro neste tortuoso caminho que mistura notícia e sensacionalismo. O modelo é sempre o mesmo: jornalistas com uma câmera no ombro e microfone em punho garimpam fatos do cotidiano nas ruas das grandes cidades.


A prioridade, é claro, são os acontecimentos que escancaram os dramas alheios. Nos estúdios das emissoras de TV, a sensatez, a legitimidade dos comentários e o domínio da informação, o que normalmente se espera dos âncoras de telejornais, invariavelmente são substituídas por achismos, especulações e uma postura que faz do apresentador encarnado num personagem, o dono absoluto da verdade.


Na Bahia, até pouco tempo, apenas as emissoras de rádio abriam os seus microfones para o povo. Nos programas matinais qualquer pessoa podia expor os seus problemas. As ondas de rádio viajavam até os ouvintes que eram nocauteados pelas histórias de exclusão social, miséria e desesperança. Quem podia ajudava a diminuir os sofrimentos narrados no rádio.


Nos anos 90, o povo ganhou vez e voz também diante das lentes de alguns canais de TV. Poderia ser uma evolução se não fosse um atentado aos princípios éticos que norteiam o jornalismo. É isso que vemos diariamente assistindo programas populistas travestidos de populares. São produções
diárias que dão audiência, geram lucro, garantem a fama e a ilusão de uma carreira de sucesso.


Com o modelo emplacando pontos elevados no ibope, algumas empresas de comunicação trouxeram de volta à mídia profissionais das antigas, que usam um falso discurso de se identificar com o "povão". Mas entre repórteres e apresentadores, que entraram para o show Bussines da televisão baiana, explorando a ignorância e a miséria da população, a casa não caiu, como diz um dos comunicadores do programa Se Liga Bocão que recentemente passou a ser transmitido pela TV Record, em Salvador.


As noites de sono continuam sendo em quartos confortáveis e não na calçada em frente às emissoras, onde os "pedintes eletrônicos" montam acampamento durante três, quatro dias para receber, ao vivo e em cores, uma promessa de solução para os seus problemas. Não resta dúvida de que os veículos de comunicação e seus comunicadores, que faturam milhões de reais usando a miséria dos que estão sem assistência dos poderes públicos, envergonham (decepcionam?) a classe de jornalistas e cidadãos que ainda acreditam na educação como base para uma vida menos desigual.

*Andréa Silva

Fantástica fábrica de Ilusões

Sensacionalismo é o nome dado a um tipo de postura editorial adotada, regular ou esporadicamente, por alguns meios de comunicação, onde o exagero, o apelo emotivo e o uso de imagens fortes na cobertura de um fato jornalístico são peças chave.

O apelo ao "sensacional" utilizado pelos três principais programas jornalísticos do gênero, na Bahia, tem sua gênese na violência, nas desgraças e situações que retratam o infortúnio alheio. São eles, o Balanço Geral e Se liga Bocão (TV Itapoan) e Que venha o povo (TV Aratu) apresentados, respectivamente, por Raimundo Varela, Zé Eduardo e Casemiro Neto. Um show da vida, do cotidiano particular/ alheio, com intuito de gerar entretenimento. É a era do espetacularismo, onde tudo é apimentado para agradar ao público e elevar a audiência.

No Brasil, a principal medição de audiência é feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), e todas as emissoras têm acesso aos números. Na corda bamba da guerra de audiência, o jornalismo “sensacional” apela para métodos esdrúxulos de chamar a atenção do telespectador, colocando em voga temas polêmicos e escandalosos do tão aclamado, por eles, ‘povo’. Escandaliza-se, assim, aquilo que nem sempre é sensacional, nem sempre é fantástico.

Com a desculpa de que “é isso que o povo gosta, é isso que o povo quer”, sobram na programação dos canais abertos – mais suscetíveis ao sobe e desce da audiência - telejornais que especulam, ironizam e dramatizam a vida do indivíduo, sem, na maioria das vezes, buscar a veracidade da notícia. Hoje, um bom programa jornalístico, instrutivo ou de entretenimento é raro de se ver nos canais abertos a população. Isso demonstra o pouco interesse destas emissoras em seguir os fins primários da comunicação jornalística, entre eles, a imparcialidade, a verdade e o compromisso com o telespectador. Só interessa o lucro.

O telejornalismo fantástico e superficial, cada dia mais, está presente na vida das pessoas, induzindo um baixo nível de reflexão crítica e uma idiotização da notícia, supervalorizando imagens e manchetes que ridicularizam ou ascendem indivíduos ao seu bel prazer. É uma ‘Fantástica Fábrica de Ilusões’, capaz de explorar e manipular de maneira irresponsável as notícias, a fim de mexer com as emoções do telespectador e os prender frente a um aparelho de televisão.

Cria-se um espetáculo onde os atores são pessoas reais, em geral, com pouca ou nenhuma instrução, que buscam nestes programas ‘santos’(os apresentadores) capazes de realizar milagres, que muitas vezes parecem incorporar, realmente, as figuras divinas. Caminhões de cestas básicas, presentes, tapas, gritos e cartões vermelhos, transformam a figura do apresentador de telejornal em advogado, juiz, anjo e até um Deus.

O público desta trama ardil e inescrupulosa somos nós. Uns obrigados a ver, mesmo que de relance, quando busca-se um canal para assistir, ‘tem que se engolir a seco’. Outros, que é a maioria, mantêm estes programas no ar. São, um a um, números no Ibope tão almejado. Buscam diversão e ‘iguais’, não sabendo que assim, fornecem os pincéis para que o ‘marrom e rosa’ componham esta parcela de imprensa televisiva vil e medíocre.

* Dinnie Ribeiro

terça-feira, 8 de abril de 2008

Antes do almoço desligue a TV

Hora do almoço, uma família reúne-se à mesa da sala. Boa hora para assistir ao telejornal, certo? Errado. Na hora do almoço, muita cautela ao ligar a televisão. Pode-se sofrer uma indigestão. O que deveria ser prazeroso e/ou informativo está longe de ser um programa jornalístico, quiçá de entretenimento. Na rede Aratu, canal quatro, tem-se Casemiro Neto e Zé Bim, no programa "Que Venha o Povo". Na Tv Itapoan encontra-se Raimundo Varela com o Balanço Geral e Zé Eduardo com o inusitado Se liga Bocão, um na seqüência do outro.

Os assuntos abordados são a miséria de vida da população. A produção se esmera para transmitir, através de seus apresentadores, a imagem de um programa de justiceiros e protetores da população abandonada. Contudo, só ficam na tentativa mesmo. Qualquer pessoa, com pelo menos com um pouco de esclarecimento, sabe que o que ocorre é a transformação do sofrimento do povo em audiência.

Presos são humilhados pelos repórteres, pessoas histéricas gritam pelo nome dos apresentadores, doentes imploram por medicamentos, mães choram pelos filhos mortos, corpos ensangüentados no chão. Esses programas não existiriam sem tudo isso. Não teriam a força e a popularidade que tem se não explorassem o sofrimento do povo. A luta pela audiência chega a ser cruel.

A grande vítima desses programas sensacionalistas é a população carente, o "povão", que tem a dor transformada em um grande espetáculo. O pior é que em sua grande maioria, essas pessoas vêem nesses programas, uma possibilidade de mudança. Tudo não passa de uma ilusão. Uma grande ilusão televisiva.

* Paloma Batista