A prioridade, é claro, são os acontecimentos que escancaram os dramas alheios. Nos estúdios das emissoras de TV, a sensatez, a legitimidade dos comentários e o domínio da informação, o que normalmente se espera dos âncoras de telejornais, invariavelmente são substituídas por achismos, especulações e uma postura que faz do apresentador encarnado num personagem, o dono absoluto da verdade.
Na Bahia, até pouco tempo, apenas as emissoras de rádio abriam os seus microfones para o povo. Nos programas matinais qualquer pessoa podia expor os seus problemas. As ondas de rádio viajavam até os ouvintes que eram nocauteados pelas histórias de exclusão social, miséria e desesperança. Quem podia ajudava a diminuir os sofrimentos narrados no rádio.
Nos anos 90, o povo ganhou vez e voz também diante das lentes de alguns canais de TV. Poderia ser uma evolução se não fosse um atentado aos princípios éticos que norteiam o jornalismo. É isso que vemos diariamente assistindo programas populistas travestidos de populares. São produções
diárias que dão audiência, geram lucro, garantem a fama e a ilusão de uma carreira de sucesso.
Com o modelo emplacando pontos elevados no ibope, algumas empresas de comunicação trouxeram de volta à mídia profissionais das antigas, que usam um falso discurso de se identificar com o "povão". Mas entre repórteres e apresentadores, que entraram para o show Bussines da televisão baiana, explorando a ignorância e a miséria da população, a casa não caiu, como diz um dos comunicadores do programa Se Liga Bocão que recentemente passou a ser transmitido pela TV Record, em Salvador.
As noites de sono continuam sendo em quartos confortáveis e não na calçada em frente às emissoras, onde os "pedintes eletrônicos" montam acampamento durante três, quatro dias para receber, ao vivo e em cores, uma promessa de solução para os seus problemas. Não resta dúvida de que os veículos de comunicação e seus comunicadores, que faturam milhões de reais usando a miséria dos que estão sem assistência dos poderes públicos, envergonham (decepcionam?) a classe de jornalistas e cidadãos que ainda acreditam na educação como base para uma vida menos desigual.
*Andréa Silva
Nenhum comentário:
Postar um comentário