Recentemente, a Igreja Católica divulgou a lista dos novos pecados sociais. Um convite para que o mundo repense os valores da vida, diz o Vaticano. A desigualdade social, o uso ou comercialização de drogas, a poluição ambiental e a manipulação genética entram para a "lista negra" do Cristianismo. Em seus discursos - por que não dizer hipócritas? - as autoridades ligadas ao alto escalão do Vaticano garantem que ninguém será excomungado se cometer um desses "deslizes". Ao mesmo tempo, declaram sentença de morte à humanidade quando condenam o incentivo a pesquisas genéticas com células-tronco de embriões. Sem pesquisas consideradas revolucionárias não vamos descobrir a cura de doenças que matam, perdemos o direito a uma vida mais longa e com saúde. Negar isso é que é um pecado. (Ou só negar isso é um pecado?).A Igreja se defende usando o argumento de que manipular células embrionárias é uma violação à vida, e alguns religiosos chegam a considerar os estudos científicos um aborto. Pior é que a falta de conhecimento e os valores exageradamente conservadores são elementos suficientes para provocar entre os católicos, também desinformados, o pecado da ira. Pecado capital, mais grave e mais difícil de ser perdoado.
Os cientistas brasileiros fazem questão de deixar claro que não existe uma batalha entre eles e a Igreja Católica, mas revelam que a instituição religiosa - ainda com o maior número de adeptos nos quatro cantos do Brasil, mesmo com o crescimento ao culto evangélico-é a maior opositora dos estudos com células-tronco de embriões. Quanto à violação da vida aprendemos com quem se dedica aos estudos científicos que não há um consenso sobre quando ela começa, mas se sabe que se a atividade do sistema nervoso cessa, a morte é inevitável. Um embrião de no máximo 14 dias ainda não tem células nervosas, portanto não pode ser considerado um ser vivo. Esse é o argumento da ciência.
No Brasil 96% dos senadores e 85% dos deputados federais aprovaram, em 2005, a Lei de Biossegurança, que autoriza as pesquisas com o uso de embriões congelados. Os trabalhos dos cientistas estão parados por causa de uma ação de inconstitucionalidade contra a lei, movida pela Procuradoria Geral da República, também no ano de 2005. Nos países como Inglaterra, Austrália e Israel os experimentos estão avançados. Nestes lugares não há proibição judicial nem falta de recursos, o que ajuda a enfraquecer a opinião deturpada de instituições como a Igreja Católica.
Para muitos cientistas, a terapia celular já pode ser considerada o futuro da medicina regenerativa. Hoje, no Brasil, são feitas experiências com células-tronco adultas usadas no tratamento do diabetes, doença de Chagas (que faz o músculo cardíaco crescer) além de outras distrofias musculares progressivas. Na pesquisa com células embrionárias só podem ser usados embriões com três anos de congelamento. Eles são encontrados em clínicas de fertilização. Os cientistas afirmam que por uma questão ética e por outros valores, respeitam a decisão dos casais que não concordam com a doação dos embriões por ideologias religiosas ou qualquer outro motivo. Os embriões que não forem usados para o estudo da terapia celular ou para fertilização in vitro, acabarão sendo descartados. Já é assim nos dias atuais.
O que não deve ser destruída é a nossa batalha (ou luta?) para que instituições como a Igreja Católica reconheçam que pecado é querer impedir que a ciência descubra a cura de doenças degenerativas, que nos livre de um câncer, das seqüelas irreversíveis de um acidente e nos devolva a esperança de viver plenos e sem a invenção de novos pecados.
* Andréa Silva
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