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quarta-feira, 7 de maio de 2008

CPI dos Cartões Corporativos na TV Senado




Os brasileiros que possuem antena UHF e conseguem sintonizar na TV Senado podem acompanhar diariamente o show de líderes partidários, eleitos legalmente com grande margem de voto. Atualmente, o assunto é a CPI dos cartões corporativos. É um tal de dossiê, que uns dizem que foi criado para prejudicar o governo de Fernando Henrique. Outros políticos afirmam que pretendem investigar se o documento vazou ou não.

Ao assistir a TV Senado, não faltam trocas de acusações, xingamentos e ameaças. É comum ver um dos líderes da oposição, como Arthur Virgílio, ameaçar a base aliada do PT de trancar a pauta, impedindo a votação. Semana passada foi a vez da senadora Ideli Salvatti protagonizar um bate-boca intenso com o senador Álvaro Dias. O assunto: um suposto dossiê contra o governo FHC.

Ambos discutiram se os papéis entraram no senado "voando"! Enquanto os políticos passam horas duelando sobre assuntos que pouco dizem respeito à vida da população brasileira, projetos importantes deixam de ser discutidos, votados e aprovados. Não há derrotado e nem vitoriosos nesse jogo. Talvez o único nocauteado seja o povo brasileiro, que a cada ano que passa, desacredita mais nos políticos que elegeu.


* Por Antônio Almeida

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Céu e inferno num pedaço de plástico

Pedro Levindo

Quem tem cartão de crédito conhece o céu e o inferno. O céu, em geral é quando se ganha ou se adquire o cartão. Sair e fazer a primeira compra é uma delícia. Você vai feliz, à procura de qualquer coisa que possa comprar com seu novo brinquedinho. Compra algo. Depois compra outra coisa. É tão fácil! Olha, gosta, pega, leva ao vendedor, e sem nem precisar de dinheiro, entrega o cartão, assina, e vai embora, feliz, feliz. Depois da primeira compra seguem outras. Uma maravilha. Agora tem crédito, tem status, tem um pedaço de plástico com seu nome que faz coisas que você nunca sonhou. Você está nas nuvens. Ocorre que, ao final de um mês, a nuvem se dissipa e você cai. É hora de pagar a conta. Muitos, sem perceber que ao final da farra sempre chega a fatura com o total a pagar, não tem condições de arcar com os gastos. Daí vem os juros, as dívidas, os sacrifícios, etc. Este é o inferno.

O que ocorre, então, quando você não tem de pagar a conta? Paraíso o tempo todo! Quando alguém paga a conta por você, você não se preocupa com o quê e com quanto vai gastar. Você simplesmente gasta. Se o cartão foi dado por mamão e papai, de vez em quando o caldo entorna. Aí eles tiram o cartão por um tempo, você entra na linha, eles devolvem. E volta tudo ao normal.

Quando o cartão é dado pelo povo brasileiro, isso não acontece. Ninguém pede sua prestação de contas. Seus 180 milhões de papais e mamães tem coisas mais urgentes com que se preocupar, como botar comida na mesa, pagar o colégio dos filhos, arcar com a carga tributária, tentar não contrair dengue ou qualquer outra doença de país subdesenvolvido, enfim, sobreviver.

O recente escândalo dos gastos dos cartões de crédito corporativo da presidência e seu sigilo vem, mais uma vez, nos mostrar que há uma classe de privilegiados no país que está acima do bem e do mal. Enquanto o resto trabalha, esses poucos privilegiados, que ganham bem, e às suas custas, saem por aí fazendo compras pessoais com o seu dinheiro.

Você lembra quanto pagou de imposto de renda na última declaração (isso para quem tem renda, coisa rara no país, e para quem declara, mais raro ainda)? Pois bem, pegue esse dinheiro, some com os impostos que incidem sobre os produtos e serviços que você compra e utiliza, bem como outros tributos, como IPVA, IPTU, etc., e chegue a um número. Agora imagine alguma autoridade entrando num badalado restaurante do circuito Brasília - São Paulo – Rio de Janeiro, pedindo um prato elaborado e um bom vinho. Mas espere aí? O que eu tenho a ver com o jantar da autoridade? Tudo, pois quem pagou a conta ao final foi você!

O pior disso tudo não são as somas envolvidos nos gastos feitos com os já famosos cartões corporativos do governo. Pouco importa se foram 10, 20, 50 ou até 100 milhões de reais. Num orçamento de bilhões e bilhões, isso é uma gota, um nada. O que importa é que estão gastando o seu, o meu, o nosso dinheiro em coisas fúteis, em gastos pessoais. O mais impressionante ainda é que, ao contrário do filho do pai rico que ganhou cartão de crédito, a presidência da república não presta contas do que gasta. E é você que paga a fatura.

Dizem que é questão de segurança nacional, como se estivesse no interesse nacional proteger a informação de quanto algum parente do presidente gastou numa padaria chique ou coisa que o valha. No interesse nacional está ver a educação funcionando, o povo saindo da miséria, a saúde melhorando, todos vivendo em segurança. E, claro, por questão de decência, ética, moral e por que não dizer, bons costumes, saber como o governo está gastando o seu dinheiro.

Os dois candidatos


As eleições municipais de 2008 se aproximam. Na capital baiana, o campo político, que já estava embaralhado desde o início, torna-se cada vez mais complexo. Aproveitando a fragilidade da atual administração do prefeito João Henrique Carneiro (PMDB-BA), aparentemente todos com alguma chance de chegar ao palácio Tomé de Souza querem tomar o lugar dele. Desde o início fala-se nos nomes de Raimundo Varela (PRB/ Rede Record), ACM Neto (DEM) e do ex-prefeito Antônio Imbassahy (PSDB). Do lado da esquerda, já deixou a barca furada do prefeito a deputada Lídice da Mata (PSB), dentre outros (o PDT, antigo partido do prefeito e que andou flertando com Imbassahy, foi obrigado a voltar pelo diretório nacional). Para completar o quadro, Nelson Pellegrino (PT), que como um bom brasileiro, não desiste nunca, também quer concorrer. Diante de tal confusão, sobressaem dois nomes que trazem algum alento: os antigos aliados Imbassahy e ACM Neto.

João Henrique não tem feito um bom trabalho. Por isso mesmo atinge apenas 16% das intenções de voto, segundo a última pesquisa séria, publicada pelo Datafolha em dezembro de 2007. É o segundo lugar, atrás apenas de Varela (19%). Para quem tenta se reeleger, ele deveria estar à frente, e bem à frente. O apresentador Varela, com seu populismo primário, seria uma reedição de Fernando José. A gestão de Lídice (9%) todos já conhecem. Pellegrino, com tantos possíveis aliados concorrendo, chega apenas a 3% das intenções, e não tem a menor chance.

O que nos deixa com os dois melhores candidatos, Imbassahy (12% nas pesquisas) e ACM Neto (15%). Os dois são muito bem preparados. ACM Neto, deputado federal baiano mais votado nas últimas eleições, vem de uma conhecida dinastia política. É considerado inteligente e arrogante. Seu trunfo é ter sido preparado pela família (e por si próprio) para chegar aonde o avô e o tio chegaram, e, quem sabe, além. Já Imbassahy foi prefeito durante oito anos. Conhece a cidade, e, apesar de algumas críticas aqui e ali, sua administração era eficiente. Bem avaliado pela população até o final do segundo mandato, foi eleito seguidas vezes melhor prefeito do país.

O que mais impulsiona os dois candidatos, porém, é a vontade. Para ambos é extremamente importante levar a prefeitura. ACM Neto, herdeiro de um grupo político em frangalhos, precisa fazer um bom trabalho à frente da prefeitura para reconstruir suas bases de poder. Só assim estaria mais qualificado para alçar vôos mais altos. Já para Imbassahy a prefeitura é uma questão de vida ou morte. Se ele se lançar candidato e perder, serão quatro anos sem mandato, sem uma base forte que o apoie. Além de serem duas eleições perdidas, sendo que numa delas ele se considerava o franco favorito. Se perder a prefeitura, sua carreira política pode estar seriamente ameaçada.


O melhor dos mundos seria uma chapa com os dois antigos aliados, provavelmente com ACM Neto encabeçando-a, tendo o ex-prefeito como vice. Não dividiram os votos, como tem feito, e naturalmente se beneficiariam da divisão de seus oponentes históricos. Após algum tempo, o deputado democrata estaria liberado para tentar cargo mais elevado na hierarquia política, e a cidade seria então administrada por Imbassahy. É uma hipótese improvável. Todavia, dado o fato de que estamos falando de política, tudo é possível.


*Pedro Levindo

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Violência em Pauta

Pedaços de madeira, móveis velhos e cartazes. Essas foram às “armas” utilizadas pelos moradores do bairro de Santa Cruz, para interditarem a Avenida Nova República, que liga o bairro à Pituba, em protesto contra a violência da região. Porém, não são apenas esses moradores que estão reféns do perigo, toda a capital da Bahia passa por um período de sitio.

No ano passado de acordo a Secretaria de Segurança Pública - SSP, o registro de assassinatos em Salvador foi em média de 3,66 por dia, totalizando o número de 1.337 mortes, um aumento considerável em relação a 2006, com 967 registros. Realmente, o número de mortes aumentou, e a cobertura do tema também. O que pode ser conseqüência do estado de “toque de recolher”, que a população esta sujeita. César Nunes, novo Secretário da SSP, - que assumiu o cargo após o pedido de exoneração de Paulo Bezerra, ao Governador Jaques Wagner- disse recentemente no Encontro de Coordenadores Regionais de Polícia Civil, que é necessário unificar as ações da Polícia Civil e Militar, e qualificá-los.

Obviamente não podemos esperar um resultado imediato, e enquanto essa “qualificação” é feita, todos os dias as notícias dos números de mortos, o que se tornou uma constante nos jornais por ser um assunto que repercute, estará exposto na mídia. O que curiosamente não é pautado são os motivos desse grande número de assassinatos em Salvador. Pois, é fato que as mortes sempre existiram, mas por que está tão em evidência no momento? Talvez seja apenas pela estatística, porém é notável que na gestão de Wagner esse número aumentou, o que não quer dizer que seja culpa do novo governo.

Com a derrota de Paulo Souto, membro da hegemonia Carlista desde 1991, intrigantemente as mídias que mostravam Salvador como a Terra da Alegria, passou a cobrir com freqüência os casos de homicídios e crimes. Algo nada estimulante para coligação “Bahia de Todos Nós”.

*Midiã Santana

terça-feira, 29 de abril de 2008

Código de Hamurabi Baiano


O aumento da repressão não diminui a criminalidade. Pelo contrário, o que ocorre na capital baiana é uma distorção dos papéis: a polícia se tornou uma grande ameaça, baseada no racismo.

Nas últimas décadas, a polícia baiana se tornou conhecida pela forma truculenta de agir. O quadro parece ter piorado com o governo Jaques Wagner, no qual cresceu o número de homicídios e foi mantido o coronel Jorge Santana, que comandava as tropas da Polícia Militar no governo anterior.

Apenas nos primeiros 20 dias de janeiro de 2008, segundo a revista Carta Capital, foram 12 mortos pela PM de Salvador. Quase sempre rapazes negros de periferia e alguns, como os quatro casos relatados pela reportagem, sem antecedentes criminais ou porte de armas. No dia 7 de março, sexta-feira, foram mais dois assassinatos cometidos pela polícia, no Ferry Boat. O motivo alegado foi a suspeita de serem assaltantes de bancos, o que levou os oficiais a atirarem nos homens que compravam os bilhetes antes de lhes abordarem, como relata uma testemunha em matéria de A Tarde.

O comportamento social mostra que o racismo está arraigado na cultura baiana. Há pouco mais de 30 anos a capital se modernizou, no entanto, sua política continuou com características de província coronelista. O preconceito é tão introjetado na sociedade que, por paradoxo, os policiais foram educados a perseguir um perfil semelhante ao seu: negro de origem humilde, a exemplo dos toques de recolher em comunidades periféricas.

Nos protestos à Comissão de Direitos Humanos ou imprensa para reivindicar os crimes cometidos contra um familiar, o delator não tem amparo garantido pelo Estado. A divulgação torna-se vã, pois inúmeros são os casos em que a Secretaria de Segurança Pública diz estar investigando os agentes de segurança envolvidos no crime. Esses, não descobertos pela instituição, saem impunes.

A melhoria nas condições de trabalho não é garantia para uma atuação mais digna da polícia. Essa, por sua vez, poderá valer-se ainda de mais força para mostrar seu desempenho. O histórico problema da arbitrariedade ilegal apenas pode ser resolvido com um novo perfil policial, através de uma educação mais humanística.

Com uma política de extermínio não é preciso mais shows em comemoração ao Dia Internacional dos Direitos Humanos. Num lugar sem prisões e julgamentos, basta valer-se da Lei do Talião (“Olho por olho, dente por dente”), legado baiano baseado no Código de Hamurabi, que justifica qualquer ação da polícia como direito de defesa, e esquecer a palavra Democracia.


* Luciana Zacarias

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Correto é não camuflar


O Brasil discute o comportamento politicamente correto há algum tempo. Gerador de polêmica, o comportamento politicamente correto nada mais é do que o preconceito disfarçado em palavras mais suaves. Além do mais, a patrulha dos grupos que defendem essa posição é também uma forma de cercear a opinião, de impedir a sua expressão de forma direta.

Mas se falamos de cerceamento, temos que apontar de onde vem a censura, a repressão. Ela vem dos mais variados campos, mas normalmente parte de figuras religiosas, do Estado e de pessoas que se fundamentam em tradicionalismos. Nesses setores, o que se apregoa é que temos que ser politicamente corretos, ou seja, não discriminar o outro com palavras, para não constranger. O que é mais contraditório nesse discurso é que não se diz que devemos combater o preconceito, mas apenas mudar as palavras.

Chamar um negro de afro-descendente não muda em nada o preconceito contra ele. Ademais, identificar alguém pela cor da pele não é uma ofensa. A raiz do preconceito não está nas palavras usadas, mas na atitude de quem as usa. Selecionar para uma vaga de trabalho um indivíduo de pele branca no lugar de um de pele negra é racismo. Chamar um branco de branco, um negro de negro, ou um gay de gay não é.

Em prol de incentivar o comportamento politicamente correto, em 2005 o governo Lula editou a “Cartilha do Politicamente Correto”, através da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. O documento condenava o uso de palavras como comunista, bêbado, peão, branquelo, funcionário público, preto e anão, dentre outras. Simples assim: troca-se estas por outras e está tudo resolvido. Podemos dormir em paz. A cartilha foi tão eficiente que meses após seu lançamento, até o governo a considerou desnecessária, suspendendo sua circulação.

Diante disso, há de se admitir que não basta enfeitarmos o discurso. Dizer “interrupção de gravidez” no lugar de “aborto” ou “homossexuais” ao invés de “gays” não muda nada. Há que se combater o problema na sua raiz: abrindo discussões para combater o preconceito. E para isso, cartilhas que proíbam o uso de determinadas palavras e expressões não bastam.

*Alice Coelho

Ser ou não ser, politicamente correto?

O sistema de cotas para negros nas Universidades é politicamente correto? Ao invés da questão racial, não se estaria deixando de abordar questões mais relevantes, como a social e o sucateamento do ensino público?

Atualmente, as cotas nas universidades públicas estão distribuídas em 20% das vagas para alunos da rede pública, 20% para negros e 5% para portadores de deficiência ou integrantes de minorias étnicas. Na Universidade de Brasília (UNB), 20% das vagas são reservadas para afros brasileiros e 15% para índios e na Universidade do Estado da Bahia, que oferece 40% de suas vagas para os afros brasileiros.

Mas será que a exclusão do negro se resume a uma questão somente racial? O negro figura como maioria nas estatísticas da linha da pobreza e abaixo dela, e quem é pobre no Brasil tem acesso apenas ao ensino público, portanto estão menos preparados para concorrer a uma vaga nas universidades estaduais e federais. Isso se deve ao baixo nível do ensino médio gratuito, que há muito vem sendo sucateado; faltam livros, professores, merenda, atividades culturais, entre outras coisas. Não há como competir em pé de igualdade com o ensino particular, onde a realidade é bem diferente. Portanto, a questão é social. Nem todo negro é pobre, tampouco todo pobre é negro. Estudando em colégio particular, o negro é tão capaz de ingressar na Universidade quanto os brancos e orientais.

Politicamente correto, seria adotar o sistema de cotas para pobres, dentro desta faixa os negros estariam contemplados por serem maioria. Ninguém deixa de chegar a Universidade pela cor da pele e sim pela falta de capacitação no ensino médio. É fundamental que se invista no ensino público e em cursos que coloquem pessoas das classes menos favorecidas em igualdade com o resto da sociedade.

Dessa forma, havendo um combate efetivo a desigualdade social, aliado a recuperação do ensino público, os negros poderão ter sua inclusão garantida na universidade, sem lançar mão de privilégios legais, afirmando sua capacidade.

* Lívia Melo