quarta-feira, 28 de maio de 2008

A INDÚSTRIA DA NOTÍCIA

Silmara Miranda

Há muito tempo já se sabe que a finalidade do jornalismo deixou de ser apenas informativa e passou também a visar lucros. Essa corrida do jornalista por novas “mercadorias” – matérias sensacionalistas que ganham espaço cada vez maior nos meios de comunicação – faz com que se apontem vilões antes mesmo do julgamento legal e de provas condenatórias. A exemplo do que presenciamos agora com o caso Isabela Nardoni.

A função nobre do jornalismo é informar, trazer conhecimento útil ao cidadão, prezando-se a ética, a moral e a imparcialidade. Contudo, o que vemos hoje, é uma busca desenfreada pelo sensacionalismo: conduta jornalística que visa audiência e a venda de jornais e revistas.

O caso mais atual é o de Isabela Nardoni, cinco anos, que morreu ao ser jogada do sexto andar de um prédio, em São Paulo, e cujo pai já foi pintado pela imprensa como o culpado. O jornalismo busca diariamente um “bode expiatório” para alavancar sua audiência e prender a atenção de expectadores ávidos por informações. A mídia dá sua versão do caso e constrói uma realidade.
Reportagens diárias, desde o dia da morte da menina, buscam sugar o máximo possível de informações, inclusive as de caráter especulativo. O problema é a forma inescrupulosa como essas notícias são veiculadas, desrespeitando o direito do cidadão à ampla defesa.
É como se a mídia precisasse de mocinhos e bandidos para tornar a história mais emocionante.
Tem-se a vítima, uma criança indefesa, brutalmente assassinada; o bandido precisa ser encontrado e a imprensa já fez o papel da justiça, atribuindo de forma velada a autoria do crime ao principal suspeito: o pai. Assim, tem-se um roteiro de grande audiência, pois se mexe na célula sagrada de toda sociedade: a família. As pessoas esperam ansiosas o desfecho do caso.

O pai de Isabela se tornou um monstro para o Brasil. Sua prisão temporária – feita para dar uma justificativa a população sedenta por justiça – aconteceu sob um clima hostil, um verdadeiro linchamento moral, no qual não faltaram xingamentos do tipo “assassino, criminoso”, sem ao menos haver uma prova concreta sobre o crime. Ora, será que ninguém se lembra mais do caso Escola Base? Acusaram pessoas inocentes, que tiveram sua imagem denegrida até se provar sua inocência. O brasileiro tem memória curta e age por impulso.

Dessa forma, ao apresentar a sua versão sobre o caso, a mídia deve tão somente se ater aos fatos concretos preservando o máximo possível a integridade moral das pessoas envolvidas e respeitando a dor dos que perderam um ente querido.

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