Por Midiã Santana
Uma doença séria, porém restringida aos frutos de um ato incestuoso, se tornou o ponto fraco da mentira quase perfeita de Fritzl, na cidade de Amstetten, na Áustria. Ele não contava com a lei da natureza.
Dia 28 de agosto de 1984, Elizabeth segue o pai que a chama para o porão. De repente, braços algemados e o corpo sedado. Era apenas o início do sofrimento de Elizabeth, uma garota de 18 anos, que sumiu subitamente nesta data.
Após um mês, uma carta aparece em sua casa, informando aos pais que parassem de procurá-la. Mas para a surpresa de todos, após duas décadas e meia de desaparecimento, Elizabeth foi “encontrada”, e verdade veio a tona.
Uma porta de concreto a prova de som separava o grito de Elizabeth, da liberdade, e da mãe Rosemeire, que desconhecia o cárcere da filha. Estreitas passagens, alturas de no máximo 1,70, e espaços que simulavam uma casa de um quarto, cozinha e banheiro, compunham o pesadelo da garota que ficou presa no porão da própria casa e foi feita escrava sexual do pai durante 24 anos.
Um porão, e uma vida perdida na mais completa escuridão. Ela era cega, mesmo com todos seus sentidos em “perfeito estado físico”, resultante da falta de janelas que permitiriam a luz e o calor do sol, elementos essenciais no dia-a-dia da planta mais simples ao animal mais exótico.
Presa na sombra, refém de um ser assombroso, a única companhia de Elizabeth era o desespero, e o mais completo transtorno emocional. Aos 11 anos, ao invés de brincar de boneca, ela foi sujeita ao primeiro trauma sexual.
Humano? O que poderia ser equiparado a Josef Fritzl se o tivermos como referência? Um ser de sobrancelhas triangulares, ao belo estilo estereotipado do demônio.
Sete filhos foram gerados no inferno particular de Elizabeth. Um dos bebês, que nasceu supostamente morto, virou cinzas nas mãos de Fritzl. A única forma de não deixar rastros.
Século XXI, 26 de abril de 2008, uma garota de 19 anos, sente fortes dores na cabeça e é levada em estado grave para um hospital. Lá, os médicos precisam entrar em contato com a mãe da adolescente que sofre de uma doença rara, que acomete pessoas geradas do incesto.
A chance de liberdade é colocada para Elizabeth, e seus três filhos que ainda vivem com ela. Os outros três foram adotados por Fritzl, que simulou o abandono dos bebês em sua porta.
A dor e o sofrimento de viver num cativeiro se converteu para a angústia de uma mãe, que vê a filha entre a vida e a morte na UTI de um hospital. Porém o sono profundo em que a jovem se encontra, e a possibilidade de sua morte, tragicamente foi a saída encontrada para Elizabeth se libertar de seu mausoléu, e “ressuscitar do inferno”.
Não havia mais nenhuma desculpa para Fritzl, nem dizer que tinha encontrado “a ‘neta’ inconsciente em frente a um edifício da cidade”. Era necessária a presença da mãe para desvendar o caso.
Feitas as investigações, a falta de rastros de Elizabeth, desde 1984, deu ponto final à desconfiança dos policias sobre essa história de terror. O “monstro” austríaco tenta encontrar desculpas na insanidade, mas as evidências o denunciam.
E pela primeira vez, seus filhos puderam apreciar as pequenas coisas da vida, como sentir o vento nos cabelos, enquanto andam de carro, ou observar as luzes amarelas dos postes noturnos.
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