quarta-feira, 9 de abril de 2008

Valorização do conhecimento

A idéia incutida a respeito da democratização do ensino superior não condiz com a realidade brasileira, pois apenas 10% da população entre 18 e 24 anos estão matriculados na graduação.
A educação no Brasil transformou-se em um negócio rentável, que conta com a negligência dos governantes e a astúcia de empresários capitalistas, que investem altas cifras no lucrativo mercado da educação.

Ao matricular-se em estabelecimentos de ensino privado os alunos colocam-se, exclusivamente, como compradores de um serviço. E são vistos e tratados como meros consumidores. Paga-se por tudo: para entrar, sair e pedir documentos. As Instituições de Ensino Superior (IES) privilegiam o lucro em detrimento da responsabilidade social.

Apesar de apregoarem que seu objetivo ou missão, em alguns casos, é de formar profissionais capacitados para o desenvolvimento da sociedade. Mas isso só ocorre quando o aluno está com todos os pagamentos em dia, sem nenhuma pendência financeira, onde pulsa o coração dessas instituições.

O capitalismo selvagem aflora nas administrações desses tipos de empresas. Mas no Brasil esta prática ganha espaço na lacuna deixada pelos governantes, que não investem em um ensino público de qualidade.

Preocupados com a receita recebida em forma de mensalidades, qualquer um pode ser estudante de uma IES. O fato decorre da falta de um sério processo seletivo, que culmina com a aprovação de semi-analfabetos e, recentemente, de um garoto de oito anos, aprovado para o curso de Direto, em uma universidade goiana.

Segundo pesquisas, entre 1980 e 2003 o setor privado foi multiplicado por 2,5 vezes, passando de 682 para 1.752 instituições. No mesmo período, o número de instituições públicas praticamente ficou estacionado: 200 para 208. Esse quadro é decorrente da desregulamentação feita em 1995. De 1995 a 1998, a média era uma instituição privada aberta a cada 13,7 dias. Entre 1998 e 2001, este índice saltou para uma a cada 2,5 dias.

Entre 31 de outubro de 2001 até 30 de julho de 2003, o número de instituições privadas aumentou impressionantes 45% - 544 foram autorizadas a funcionar, um estabelecimento a cada 1,2 dia.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, esboça uma pálida reação ao criticar a mercantilização do ensino. Todavia, não apresenta projetos para mudar essa realidade. Torna-se notória e vergonhosa a falta de investimentos na área da educação brasileira.

*Karina Oliveira da Silva

Guerra pela audiência: TVs transformam programas populares em populistas

Já se vão 30 anos desde que o telespectador brasileiro viu nascer os primeiros programas populares com rótulo de jornalísticos. O noticiário Aqui e Agora, exibido diariamente pelo Sistema Brasileiro de Televisão SBT, foi pioneiro neste tortuoso caminho que mistura notícia e sensacionalismo. O modelo é sempre o mesmo: jornalistas com uma câmera no ombro e microfone em punho garimpam fatos do cotidiano nas ruas das grandes cidades.


A prioridade, é claro, são os acontecimentos que escancaram os dramas alheios. Nos estúdios das emissoras de TV, a sensatez, a legitimidade dos comentários e o domínio da informação, o que normalmente se espera dos âncoras de telejornais, invariavelmente são substituídas por achismos, especulações e uma postura que faz do apresentador encarnado num personagem, o dono absoluto da verdade.


Na Bahia, até pouco tempo, apenas as emissoras de rádio abriam os seus microfones para o povo. Nos programas matinais qualquer pessoa podia expor os seus problemas. As ondas de rádio viajavam até os ouvintes que eram nocauteados pelas histórias de exclusão social, miséria e desesperança. Quem podia ajudava a diminuir os sofrimentos narrados no rádio.


Nos anos 90, o povo ganhou vez e voz também diante das lentes de alguns canais de TV. Poderia ser uma evolução se não fosse um atentado aos princípios éticos que norteiam o jornalismo. É isso que vemos diariamente assistindo programas populistas travestidos de populares. São produções
diárias que dão audiência, geram lucro, garantem a fama e a ilusão de uma carreira de sucesso.


Com o modelo emplacando pontos elevados no ibope, algumas empresas de comunicação trouxeram de volta à mídia profissionais das antigas, que usam um falso discurso de se identificar com o "povão". Mas entre repórteres e apresentadores, que entraram para o show Bussines da televisão baiana, explorando a ignorância e a miséria da população, a casa não caiu, como diz um dos comunicadores do programa Se Liga Bocão que recentemente passou a ser transmitido pela TV Record, em Salvador.


As noites de sono continuam sendo em quartos confortáveis e não na calçada em frente às emissoras, onde os "pedintes eletrônicos" montam acampamento durante três, quatro dias para receber, ao vivo e em cores, uma promessa de solução para os seus problemas. Não resta dúvida de que os veículos de comunicação e seus comunicadores, que faturam milhões de reais usando a miséria dos que estão sem assistência dos poderes públicos, envergonham (decepcionam?) a classe de jornalistas e cidadãos que ainda acreditam na educação como base para uma vida menos desigual.

*Andréa Silva

Correto é não camuflar


O Brasil discute o comportamento politicamente correto há algum tempo. Gerador de polêmica, o comportamento politicamente correto nada mais é do que o preconceito disfarçado em palavras mais suaves. Além do mais, a patrulha dos grupos que defendem essa posição é também uma forma de cercear a opinião, de impedir a sua expressão de forma direta.

Mas se falamos de cerceamento, temos que apontar de onde vem a censura, a repressão. Ela vem dos mais variados campos, mas normalmente parte de figuras religiosas, do Estado e de pessoas que se fundamentam em tradicionalismos. Nesses setores, o que se apregoa é que temos que ser politicamente corretos, ou seja, não discriminar o outro com palavras, para não constranger. O que é mais contraditório nesse discurso é que não se diz que devemos combater o preconceito, mas apenas mudar as palavras.

Chamar um negro de afro-descendente não muda em nada o preconceito contra ele. Ademais, identificar alguém pela cor da pele não é uma ofensa. A raiz do preconceito não está nas palavras usadas, mas na atitude de quem as usa. Selecionar para uma vaga de trabalho um indivíduo de pele branca no lugar de um de pele negra é racismo. Chamar um branco de branco, um negro de negro, ou um gay de gay não é.

Em prol de incentivar o comportamento politicamente correto, em 2005 o governo Lula editou a “Cartilha do Politicamente Correto”, através da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. O documento condenava o uso de palavras como comunista, bêbado, peão, branquelo, funcionário público, preto e anão, dentre outras. Simples assim: troca-se estas por outras e está tudo resolvido. Podemos dormir em paz. A cartilha foi tão eficiente que meses após seu lançamento, até o governo a considerou desnecessária, suspendendo sua circulação.

Diante disso, há de se admitir que não basta enfeitarmos o discurso. Dizer “interrupção de gravidez” no lugar de “aborto” ou “homossexuais” ao invés de “gays” não muda nada. Há que se combater o problema na sua raiz: abrindo discussões para combater o preconceito. E para isso, cartilhas que proíbam o uso de determinadas palavras e expressões não bastam.

*Alice Coelho

Fantástica fábrica de Ilusões

Sensacionalismo é o nome dado a um tipo de postura editorial adotada, regular ou esporadicamente, por alguns meios de comunicação, onde o exagero, o apelo emotivo e o uso de imagens fortes na cobertura de um fato jornalístico são peças chave.

O apelo ao "sensacional" utilizado pelos três principais programas jornalísticos do gênero, na Bahia, tem sua gênese na violência, nas desgraças e situações que retratam o infortúnio alheio. São eles, o Balanço Geral e Se liga Bocão (TV Itapoan) e Que venha o povo (TV Aratu) apresentados, respectivamente, por Raimundo Varela, Zé Eduardo e Casemiro Neto. Um show da vida, do cotidiano particular/ alheio, com intuito de gerar entretenimento. É a era do espetacularismo, onde tudo é apimentado para agradar ao público e elevar a audiência.

No Brasil, a principal medição de audiência é feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), e todas as emissoras têm acesso aos números. Na corda bamba da guerra de audiência, o jornalismo “sensacional” apela para métodos esdrúxulos de chamar a atenção do telespectador, colocando em voga temas polêmicos e escandalosos do tão aclamado, por eles, ‘povo’. Escandaliza-se, assim, aquilo que nem sempre é sensacional, nem sempre é fantástico.

Com a desculpa de que “é isso que o povo gosta, é isso que o povo quer”, sobram na programação dos canais abertos – mais suscetíveis ao sobe e desce da audiência - telejornais que especulam, ironizam e dramatizam a vida do indivíduo, sem, na maioria das vezes, buscar a veracidade da notícia. Hoje, um bom programa jornalístico, instrutivo ou de entretenimento é raro de se ver nos canais abertos a população. Isso demonstra o pouco interesse destas emissoras em seguir os fins primários da comunicação jornalística, entre eles, a imparcialidade, a verdade e o compromisso com o telespectador. Só interessa o lucro.

O telejornalismo fantástico e superficial, cada dia mais, está presente na vida das pessoas, induzindo um baixo nível de reflexão crítica e uma idiotização da notícia, supervalorizando imagens e manchetes que ridicularizam ou ascendem indivíduos ao seu bel prazer. É uma ‘Fantástica Fábrica de Ilusões’, capaz de explorar e manipular de maneira irresponsável as notícias, a fim de mexer com as emoções do telespectador e os prender frente a um aparelho de televisão.

Cria-se um espetáculo onde os atores são pessoas reais, em geral, com pouca ou nenhuma instrução, que buscam nestes programas ‘santos’(os apresentadores) capazes de realizar milagres, que muitas vezes parecem incorporar, realmente, as figuras divinas. Caminhões de cestas básicas, presentes, tapas, gritos e cartões vermelhos, transformam a figura do apresentador de telejornal em advogado, juiz, anjo e até um Deus.

O público desta trama ardil e inescrupulosa somos nós. Uns obrigados a ver, mesmo que de relance, quando busca-se um canal para assistir, ‘tem que se engolir a seco’. Outros, que é a maioria, mantêm estes programas no ar. São, um a um, números no Ibope tão almejado. Buscam diversão e ‘iguais’, não sabendo que assim, fornecem os pincéis para que o ‘marrom e rosa’ componham esta parcela de imprensa televisiva vil e medíocre.

* Dinnie Ribeiro

Pecado é não salvar vidas

Recentemente, a Igreja Católica divulgou a lista dos novos pecados sociais. Um convite para que o mundo repense os valores da vida, diz o Vaticano. A desigualdade social, o uso ou comercialização de drogas, a poluição ambiental e a manipulação genética entram para a "lista negra" do Cristianismo. Em seus discursos - por que não dizer hipócritas? - as autoridades ligadas ao alto escalão do Vaticano garantem que ninguém será excomungado se cometer um desses "deslizes". Ao mesmo tempo, declaram sentença de morte à humanidade quando condenam o incentivo a pesquisas genéticas com células-tronco de embriões. Sem pesquisas consideradas revolucionárias não vamos descobrir a cura de doenças que matam, perdemos o direito a uma vida mais longa e com saúde. Negar isso é que é um pecado. (Ou só negar isso é um pecado?).

A Igreja se defende usando o argumento de que manipular células embrionárias é uma violação à vida, e alguns religiosos chegam a considerar os estudos científicos um aborto. Pior é que a falta de conhecimento e os valores exageradamente conservadores são elementos suficientes para provocar entre os católicos, também desinformados, o pecado da ira. Pecado capital, mais grave e mais difícil de ser perdoado.

Os cientistas brasileiros fazem questão de deixar claro que não existe uma batalha entre eles e a Igreja Católica, mas revelam que a instituição religiosa - ainda com o maior número de adeptos nos quatro cantos do Brasil, mesmo com o crescimento ao culto evangélico-é a maior opositora dos estudos com células-tronco de embriões. Quanto à violação da vida aprendemos com quem se dedica aos estudos científicos que não há um consenso sobre quando ela começa, mas se sabe que se a atividade do sistema nervoso cessa, a morte é inevitável. Um embrião de no máximo 14 dias ainda não tem células nervosas, portanto não pode ser considerado um ser vivo. Esse é o argumento da ciência.

No Brasil 96% dos senadores e 85% dos deputados federais aprovaram, em 2005, a Lei de Biossegurança, que autoriza as pesquisas com o uso de embriões congelados. Os trabalhos dos cientistas estão parados por causa de uma ação de inconstitucionalidade contra a lei, movida pela Procuradoria Geral da República, também no ano de 2005. Nos países como Inglaterra, Austrália e Israel os experimentos estão avançados. Nestes lugares não há proibição judicial nem falta de recursos, o que ajuda a enfraquecer a opinião deturpada de instituições como a Igreja Católica.

Para muitos cientistas, a terapia celular já pode ser considerada o futuro da medicina regenerativa. Hoje, no Brasil, são feitas experiências com células-tronco adultas usadas no tratamento do diabetes, doença de Chagas (que faz o músculo cardíaco crescer) além de outras distrofias musculares progressivas. Na pesquisa com células embrionárias só podem ser usados embriões com três anos de congelamento. Eles são encontrados em clínicas de fertilização. Os cientistas afirmam que por uma questão ética e por outros valores, respeitam a decisão dos casais que não concordam com a doação dos embriões por ideologias religiosas ou qualquer outro motivo. Os embriões que não forem usados para o estudo da terapia celular ou para fertilização in vitro, acabarão sendo descartados. Já é assim nos dias atuais.

O que não deve ser destruída é a nossa batalha (ou luta?) para que instituições como a Igreja Católica reconheçam que pecado é querer impedir que a ciência descubra a cura de doenças degenerativas, que nos livre de um câncer, das seqüelas irreversíveis de um acidente e nos devolva a esperança de viver plenos e sem a invenção de novos pecados.

* Andréa Silva

Ser ou não ser, politicamente correto?

O sistema de cotas para negros nas Universidades é politicamente correto? Ao invés da questão racial, não se estaria deixando de abordar questões mais relevantes, como a social e o sucateamento do ensino público?

Atualmente, as cotas nas universidades públicas estão distribuídas em 20% das vagas para alunos da rede pública, 20% para negros e 5% para portadores de deficiência ou integrantes de minorias étnicas. Na Universidade de Brasília (UNB), 20% das vagas são reservadas para afros brasileiros e 15% para índios e na Universidade do Estado da Bahia, que oferece 40% de suas vagas para os afros brasileiros.

Mas será que a exclusão do negro se resume a uma questão somente racial? O negro figura como maioria nas estatísticas da linha da pobreza e abaixo dela, e quem é pobre no Brasil tem acesso apenas ao ensino público, portanto estão menos preparados para concorrer a uma vaga nas universidades estaduais e federais. Isso se deve ao baixo nível do ensino médio gratuito, que há muito vem sendo sucateado; faltam livros, professores, merenda, atividades culturais, entre outras coisas. Não há como competir em pé de igualdade com o ensino particular, onde a realidade é bem diferente. Portanto, a questão é social. Nem todo negro é pobre, tampouco todo pobre é negro. Estudando em colégio particular, o negro é tão capaz de ingressar na Universidade quanto os brancos e orientais.

Politicamente correto, seria adotar o sistema de cotas para pobres, dentro desta faixa os negros estariam contemplados por serem maioria. Ninguém deixa de chegar a Universidade pela cor da pele e sim pela falta de capacitação no ensino médio. É fundamental que se invista no ensino público e em cursos que coloquem pessoas das classes menos favorecidas em igualdade com o resto da sociedade.

Dessa forma, havendo um combate efetivo a desigualdade social, aliado a recuperação do ensino público, os negros poderão ter sua inclusão garantida na universidade, sem lançar mão de privilégios legais, afirmando sua capacidade.

* Lívia Melo

terça-feira, 8 de abril de 2008

Antes do almoço desligue a TV

Hora do almoço, uma família reúne-se à mesa da sala. Boa hora para assistir ao telejornal, certo? Errado. Na hora do almoço, muita cautela ao ligar a televisão. Pode-se sofrer uma indigestão. O que deveria ser prazeroso e/ou informativo está longe de ser um programa jornalístico, quiçá de entretenimento. Na rede Aratu, canal quatro, tem-se Casemiro Neto e Zé Bim, no programa "Que Venha o Povo". Na Tv Itapoan encontra-se Raimundo Varela com o Balanço Geral e Zé Eduardo com o inusitado Se liga Bocão, um na seqüência do outro.

Os assuntos abordados são a miséria de vida da população. A produção se esmera para transmitir, através de seus apresentadores, a imagem de um programa de justiceiros e protetores da população abandonada. Contudo, só ficam na tentativa mesmo. Qualquer pessoa, com pelo menos com um pouco de esclarecimento, sabe que o que ocorre é a transformação do sofrimento do povo em audiência.

Presos são humilhados pelos repórteres, pessoas histéricas gritam pelo nome dos apresentadores, doentes imploram por medicamentos, mães choram pelos filhos mortos, corpos ensangüentados no chão. Esses programas não existiriam sem tudo isso. Não teriam a força e a popularidade que tem se não explorassem o sofrimento do povo. A luta pela audiência chega a ser cruel.

A grande vítima desses programas sensacionalistas é a população carente, o "povão", que tem a dor transformada em um grande espetáculo. O pior é que em sua grande maioria, essas pessoas vêem nesses programas, uma possibilidade de mudança. Tudo não passa de uma ilusão. Uma grande ilusão televisiva.

* Paloma Batista