Helane Carine Aragão
Acabo de me redescobrir, depois de quase 30 anos vividos, uma parva, uma bronca, uma tapada estúpida redundamente assumida.
Acabo de me redescobrir, depois de quase 30 anos vividos, uma parva, uma bronca, uma tapada estúpida redundamente assumida.
Sou fã de esportes. Comecei na natação aos cinco anos. Nadei durante nove. Aos 14, por falta de patrocínio - talvez não fosse tão boa quanto achava que eu era - resolvi largar o esporte. Ser atleta me impedia de participar, dentre outras coisas, das festinhas de 15 anos da turma do colégio ou dos lanches na Mc Donalds aos sábados à tarde no shopping.
Vida de atleta é de fato cheia de privações. Minhas primeiras desilusões amorosas também vieram junto com a natação. Larguei de mão sem pestanejar.
Em meio à prática nas piscinas da capital, e do interior baiano, veio o tênis, esporte no qual eu superava muito pouca gente por competição. Apenas uma. Fiz algumas aulas, mas também larguei. O que eu mais gostava era a roupa alva, branquinha, e a mini-saia.
Ah, qual é? Eu estava na adolescência, puberdade, hormônios frívolos, estas coisas.
Então, nessa época, estudava à tarde e nadava pela manhã, bem cedo. Sete da manhã já estava na água executando braçadas e pernadas. As nove, o treino terminava e eu vestia a minha sainha branca e corria para a quadra com a raquete em mãos. Ao terminar a aula, tomava banho no próprio clube. Às 11h30min eu já estava pronta, pois o transporte que me levava até a escola me buscava primeiro, por eu morar muito longe.
Na volta para casa, eu era sempre a última – aqui cabe um adendo: muito feliz aquele ditado que diz que “os últimos serão os primeiros”, no meu caso, no dia seguinte. Depois do colégio, voltava para a piscina. Que vidinha desgraçada eu levava. Além de controlar a alimentação, estudava e praticava esportes. Ah, e surfava aos domingos pela manhã, antes do treino de natação que acontecia todos os dias da semana. Sim, já fiz de tudo um pouco. E nunca repeti sequer um ano no colégio. Nem nunca fui para a recuperação, até começar a namorar aos 13. Mas nunca perdi um ano, mesmo com as novas atividades coronárias.
E assim fui. Cursei uma faculdade de economia, dei aulas de matemática em uma escola de primeiro grau, estudei inglês, dei aulas particulares da língua, trabalhei em uma seguradora, em uma loja de sapatos, em duas construtoras, em uma empresa de capital misto. Dividi minha vida em três turnos: pela manhã trabalhava em um lugar. Pela tarde em outro e a noite ia à faculdade. Voltei a estudar para fazer outro curso de graduação, até me deparar com as últimas edições do jornal A Tarde.
Primeiro fiquei estupefata com o baixo índice no exame que avalia os cursos superiores no Brasil. A faculdade de Medicina da Bahia está entre as 17 piores. Para completar, um “merdinha” me chama de burra! Como assim?
Então resgato a minha vida de atleta e me lembro que tentei fazer capoeira, quando conheci o boxe e o jiu jitsu, aos 24 anos. Quem diz que o berimbau é um instrumento para pessoas de poucos neurônios, nunca tentou tocá-lo. Muito menos lutar ao som dele. Se bem que, dizem que o swing é aparente na cor da pele, ausente no coordenador do curso que fez declarações infelizes.
Mas onde eu estava? Ah, sim, falando da batida do berimbau e porque não falar do ritmo percussivo do Olodum, Timbalada, Ilê Ayê, Malê de balê ou do afoxé Filhos de Gandhy, que para mim, não tem nada de barulhento!
Aposto que o infeliz não faz “sambinha” em caixa de fósforos. Ou é tão imbecil que, ele próprio não percebeu que, como baiano, se encaixa no próprio julgamento que faz da nossa inteligência. Mas então, estou muito depressiva hoje. Toda a minha capacidade e intelecto foram resumidos ao manejo dos meus músculos motores superiores.
E olhe que ele nem me viu nas aulas de capoeira...
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