
Um tiro no pulmão dos brasileiros. Primeiro, a crônica de horrores da empresária goiana Sílvia Calabresi Lima, que torturava e mutilava cotidianamente, em sua área de serviço, uma menina de doze anos adotada ilegalmente. Agora, a morte de Isabella Nardoni, aparentemente arremessada, aos cinco anos de idade, por um buraco na tela de proteção instalada numa janela do apartamento do pai. Ambos, crimes brutais, casos chocantes envolvendo crianças. Perdemos o fôlego.
A curiosidade sobre a resolução dos casos, principalmente do último, ainda sem solução, é natural. Mas a pergunta imediata que me faço é: até onde pode ir uma especulação? E isto se refere, principalmente, ao trabalho da imprensa e das mídias televisiva e online, que aderiram a uma maratona insana para ver quem ocupa mais tempo da programação, ou vai mais longe, sugerindo desfechos possíveis para o episódio.
Quem assistiu a edição de sábado do Aqui Agora (só a volta desse programa já valeria o comentário) viu uma entrevista deprimente com uma psicanalista, a quem o repórter insistia em perguntar sobre o que levaria o pai a assassinar Isabella. Posta na parede, a entrevistada tentava medir as palavras, mas não deixou de afirmar que Alexandre Nardoni tem o biótipo de pessoas que são acometidas de surto psicótico. Um exemplar típico de dupla especulação, tendo em vista que nem mesmo a polícia definiu o assassino e quais as suas razões. As imagens da criança, exaustivamente expostas, são complementadas com tomadas aéreas da rua da mãe Ana Carolina, em plena noite.
Quem pensar que apenas palpiteiros de praxe, conhecidamente sensacionalistas, como Luís Datena, andam abusando da inteligência emocional do espectador, o G1 (site de notícias da Globo.com) prova o contrário. Uma matéria do último domingo traz o seguinte: “Prédio de onde Isabella caiu vira atração”. Este é o título da reportagem feita por Carolina Iskandarian (será que ela e seus editores já ouviram falar sobre direito ao contraditório e ampla defesa?), que chega a citar um “clima de hostilidade” por parte dos moradores do edifício London, de onde Isabella foi atirada. E teria mesmo coisa mais agressiva, invasiva e hostil que o assédio dos curiosos e da imprensa? “Não é justo o que vocês estão fazendo com a gente. Isso aqui não é ponto turístico. As crianças não podem mais descer para brincar. Quando é que vamos ter privacidade?”, respondeu uma moradora do segundo andar.
Outra façanha ocorreu na edição de O Globo, sábado passado. Além de resgatar Xuxa do ostracismo, o impresso cedeu espaço a uma rainha dos baixinhos cheia de razão sobre o caso Isabella. Sim, porque ela já afirma em sua carta aberta que o responsável pela menina jogou-a da janela na tentativa de educá-la. É isso mesmo ou eu entendi errado?
Para além dos veículos de comunicação que vendem capas e competem pelos shares de audiência, a polícia contribui sensivelmente para a crucificação do pai e da madrasta de Isabella e torna cada descoberta, uma cena do espetáculo. Mesmo com o inquérito sobre a morte da menina, correndo em segredo de Justiça, a relação promíscua entre jornalistas e policiais reproduzem atitudes intempestivas - como a de uma delegada que, no dia seguinte à tragédia, aos brados, anunciava quem era o assassino – ou, no mínimo, espalhafatosas. Vide o promotor de Justiça Francisco Cembranelli, perito em “exclusivas” e coletivas recheadas de comentários que insinuam suspeição do casal.
Este purgatório midiático produziu uma sensação de constante ansiedade no âmbito doméstico. O assunto virou tema de rodas de amigos e, em alguns casos, antes mesmo de qualquer outro assunto, comenta-se sobre a culpa da morte da pequena Nardoni, o conhecimento de provas e avanços da perícia técnica, a reação da mãe e dos avós paternos, o que ocorreu antes do crime; verdadeira corrente especulativa extra-mídia, que retroalimenta os noticiários.
Alguns homens de imprensa voltaram a 1994. O primeiro deles, o veterano Alexandre Garcia pedia cautela no Jornal da Manhã, três dias após o crime, ao lembrar o caso da Escola Base, quando duas mães de alunos denunciaram à polícia que seus filhos haviam sido molestados sexualmente pelos donos da escola – eles eram inocentes, mas foram publicamente linchados. Outros suscitaram a acusação de assassinato, sem provas, dos pais da inglesinha Madeleine McCann, desaparecida em Portugal e cujo corpo jamais foi encontrado.
Quem matou? A pergunta comum aos capítulos finais das telenovelas da Rede Globo talvez não deixe tão cedo o olhar da audiência. De fato, o acompanhamento da opinião pública perante questões judiciais é fundamental para exigir uma investigação isenta e eficiente. É bom lembrar, apenas, que a garotinha de cinco anos não é mais uma personagem de Gilberto Braga, assassinada ao final da trama: mais respeito a Isabella Nardoni e à teia de bestialidade que originou o seu trágico falecimento.
A curiosidade sobre a resolução dos casos, principalmente do último, ainda sem solução, é natural. Mas a pergunta imediata que me faço é: até onde pode ir uma especulação? E isto se refere, principalmente, ao trabalho da imprensa e das mídias televisiva e online, que aderiram a uma maratona insana para ver quem ocupa mais tempo da programação, ou vai mais longe, sugerindo desfechos possíveis para o episódio.
Quem assistiu a edição de sábado do Aqui Agora (só a volta desse programa já valeria o comentário) viu uma entrevista deprimente com uma psicanalista, a quem o repórter insistia em perguntar sobre o que levaria o pai a assassinar Isabella. Posta na parede, a entrevistada tentava medir as palavras, mas não deixou de afirmar que Alexandre Nardoni tem o biótipo de pessoas que são acometidas de surto psicótico. Um exemplar típico de dupla especulação, tendo em vista que nem mesmo a polícia definiu o assassino e quais as suas razões. As imagens da criança, exaustivamente expostas, são complementadas com tomadas aéreas da rua da mãe Ana Carolina, em plena noite.
Quem pensar que apenas palpiteiros de praxe, conhecidamente sensacionalistas, como Luís Datena, andam abusando da inteligência emocional do espectador, o G1 (site de notícias da Globo.com) prova o contrário. Uma matéria do último domingo traz o seguinte: “Prédio de onde Isabella caiu vira atração”. Este é o título da reportagem feita por Carolina Iskandarian (será que ela e seus editores já ouviram falar sobre direito ao contraditório e ampla defesa?), que chega a citar um “clima de hostilidade” por parte dos moradores do edifício London, de onde Isabella foi atirada. E teria mesmo coisa mais agressiva, invasiva e hostil que o assédio dos curiosos e da imprensa? “Não é justo o que vocês estão fazendo com a gente. Isso aqui não é ponto turístico. As crianças não podem mais descer para brincar. Quando é que vamos ter privacidade?”, respondeu uma moradora do segundo andar.
Outra façanha ocorreu na edição de O Globo, sábado passado. Além de resgatar Xuxa do ostracismo, o impresso cedeu espaço a uma rainha dos baixinhos cheia de razão sobre o caso Isabella. Sim, porque ela já afirma em sua carta aberta que o responsável pela menina jogou-a da janela na tentativa de educá-la. É isso mesmo ou eu entendi errado?
Para além dos veículos de comunicação que vendem capas e competem pelos shares de audiência, a polícia contribui sensivelmente para a crucificação do pai e da madrasta de Isabella e torna cada descoberta, uma cena do espetáculo. Mesmo com o inquérito sobre a morte da menina, correndo em segredo de Justiça, a relação promíscua entre jornalistas e policiais reproduzem atitudes intempestivas - como a de uma delegada que, no dia seguinte à tragédia, aos brados, anunciava quem era o assassino – ou, no mínimo, espalhafatosas. Vide o promotor de Justiça Francisco Cembranelli, perito em “exclusivas” e coletivas recheadas de comentários que insinuam suspeição do casal.
Este purgatório midiático produziu uma sensação de constante ansiedade no âmbito doméstico. O assunto virou tema de rodas de amigos e, em alguns casos, antes mesmo de qualquer outro assunto, comenta-se sobre a culpa da morte da pequena Nardoni, o conhecimento de provas e avanços da perícia técnica, a reação da mãe e dos avós paternos, o que ocorreu antes do crime; verdadeira corrente especulativa extra-mídia, que retroalimenta os noticiários.
Alguns homens de imprensa voltaram a 1994. O primeiro deles, o veterano Alexandre Garcia pedia cautela no Jornal da Manhã, três dias após o crime, ao lembrar o caso da Escola Base, quando duas mães de alunos denunciaram à polícia que seus filhos haviam sido molestados sexualmente pelos donos da escola – eles eram inocentes, mas foram publicamente linchados. Outros suscitaram a acusação de assassinato, sem provas, dos pais da inglesinha Madeleine McCann, desaparecida em Portugal e cujo corpo jamais foi encontrado.
Quem matou? A pergunta comum aos capítulos finais das telenovelas da Rede Globo talvez não deixe tão cedo o olhar da audiência. De fato, o acompanhamento da opinião pública perante questões judiciais é fundamental para exigir uma investigação isenta e eficiente. É bom lembrar, apenas, que a garotinha de cinco anos não é mais uma personagem de Gilberto Braga, assassinada ao final da trama: mais respeito a Isabella Nardoni e à teia de bestialidade que originou o seu trágico falecimento.
*Maria Isis
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